Há bastante tempo que tenho andado a ler coisas publicadas por criacionistas (não necessariamente em português) em que eles dizem que muitos órgãos que se pensavam ser vestigiais afinal não são. Mas um problema comum era que eles usavam para comporem os argumentos definições de órgão vestigial que não são as verdadeiras (isto é, órgão sem qualquer função).
Aqui está uma boa definição (via Pharyngula) de órgão vestigial:
«Vestigial organs are relics, reduced in function or even completely losing a function. Finding a novel function, or an expanded secondary function, does not make such organs non-vestigial.» - São relíquias, cuja função original se encontra reduzida ou já não existe. No entanto podem ter outras funções.
Exemplos de órgãos vestigiais são a pélvis e os membros atrofiados das baleias (uma evidência sugestiva da sua origem terrestre). A nossa própria cauda vestigial. E o nosso apêndice. Por amor de deus, isto dá-se no secundário! (Pelo menos para quem escolheu ciências.)
Já os criacionistas dizem que a definição já mudou (recentemente) para acomodar as novas observações. Mas isso é mentira. Aqui está uma citação do próprio Darwin (também via Pharyngula):
«An organ, serving for two purposes, may become rudimentary or utterly aborted for one, even the more important purpose, and remain perfectly efficient for the other.»
Como vêem, ninguém está a fugir à refutação. Excepto os criacionistas - mas isso é outra história.
Este blog é a continuação do meu velho blog com o mesmo título e vai tratar de assuntos diferentes, como psicologia e neurociências, mas também de evolução como anteriormente, um pouco de filosofia de vez em quando, ateísmo e religião - e isso inclui demolir argumentos criacionistas (e escarnecer deles).
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Evolução (rápida) do cérebro humano
Agora mesmo deparei-me com um artigo no site da Sociedade Brasileira de Neurociência sobre um estudo sobre a evolução do cérebro humano, que, ao que parece foi mais rápida do que nos outros animais, incluindo nos outros primatas. No artigo, lê-se o seguinte:
«Cérebro humano tem evolução única Segundo estudo, ele se desenvolve mais depressa do que o de qualquer espécie Alok Jha escreve para ‘The Guardian’: A sofisticação do cérebro humano não é simplesmente resultado de uma evolução constante, segundo nova pesquisa. Ao invés disso, os seres humanos são animais privilegiados com cérebros que se desenvolveram num tipo de evolução extraordinariamente rápida, única entre as espécies. "Nosso estudo oferece a primeira evidência genética de que os humanos ocupam uma posição única na árvore da vida", disse Bruce Lahn, professor-assistente de Genética Humana na Universidade de Chicago e pesquisador do Howard Hughes Medical Institute. A pesquisa de Lahn, publicada esta semana na revista especializada Cell, sugere que os seres humanos evoluíram suas capacidades cognitivas (relacionadas ao conhecimento) não por causa de algumas esporádicas e acidentais mutações genéticas - como é a forma normal peculiar às coisas vivas...»
"Ocupam uma posição única na árvore da vida"... Eu pensaria duas vezes antes fazer uma afirmação como esta. Não, os humanos não são propriamente privilegiados, eles como tantos outros animais, plantas bactérias, fungos, whatever, adaptaram-se ao seu ambiente, mas no caso do cérebro, o processo evolutivo foi mais rápido, devido, segundo os investigadores, à acção da selecção natural. E isto não é certamente evidência de que algum deus interveio (escusam de pensar em afiambrar-se, cristãos). Note-se que é "selecção natural", não "selecção divina" (chiça! Terei mesmo de constatar o óbvio? Infelizmente acho que sim).
«Cérebro humano tem evolução única Segundo estudo, ele se desenvolve mais depressa do que o de qualquer espécie Alok Jha escreve para ‘The Guardian’: A sofisticação do cérebro humano não é simplesmente resultado de uma evolução constante, segundo nova pesquisa. Ao invés disso, os seres humanos são animais privilegiados com cérebros que se desenvolveram num tipo de evolução extraordinariamente rápida, única entre as espécies. "Nosso estudo oferece a primeira evidência genética de que os humanos ocupam uma posição única na árvore da vida", disse Bruce Lahn, professor-assistente de Genética Humana na Universidade de Chicago e pesquisador do Howard Hughes Medical Institute. A pesquisa de Lahn, publicada esta semana na revista especializada Cell, sugere que os seres humanos evoluíram suas capacidades cognitivas (relacionadas ao conhecimento) não por causa de algumas esporádicas e acidentais mutações genéticas - como é a forma normal peculiar às coisas vivas...»
"Ocupam uma posição única na árvore da vida"... Eu pensaria duas vezes antes fazer uma afirmação como esta. Não, os humanos não são propriamente privilegiados, eles como tantos outros animais, plantas bactérias, fungos, whatever, adaptaram-se ao seu ambiente, mas no caso do cérebro, o processo evolutivo foi mais rápido, devido, segundo os investigadores, à acção da selecção natural. E isto não é certamente evidência de que algum deus interveio (escusam de pensar em afiambrar-se, cristãos). Note-se que é "selecção natural", não "selecção divina" (chiça! Terei mesmo de constatar o óbvio? Infelizmente acho que sim).
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Como me tornei ateia: O meu percurso até agora
Não, não houve qualquer tipo de "desconversão" de nenhuma forma de cristianismo. Eu nunca fui muito cristã. A maior parte do tempo, até uma certa idade (10, 11 anos), nunca pensei muito no assunto da existência de deus e quando pensava era mais um "se deus existe, então...", portanto nunca acreditei firmemente num deus (julgo já ter escrito sobre isto no meu outro blog, mas aqui vai).
Desde garota que os meus pais nunca me ensinaram criacionismo, antes pelo contrário, ensinavam que descendíamos de um animal tipo macaco e que a vida na terra já evoluíra. Encorajaram-me a pesquisar sobre outras religiões, incluindo religiões da antiguidade, e nunca me impuseram uma crença em deus, até porque os meus pais eram agnósticos - no sentido de que normalmente me diziam "não sei" (acho que, pelo menos agora, são ateus - pelo menos o meu pai). Também não eram muito de ir à igreja de um modo geral. No entanto, tinha uma madrinha muito católica, que pressionou a minha mãe, dizendo-lhe que seria bom para a minha formação, etc., para que eu fosse à igreja (e até para ela a substituir durante uns tempos na catequese quando esteve doente). Assim, eu acabei por, durante cerca de um ano e meio ao todo, ir à missa mais ou menos regularmente e à catequese, portanto também tive a minha quota parte de contacto com o cristianismo (católico, felizmente), ainda que muito menos do que a maioria dos ateus que conheço (pessoalmente e não). O meu ateísmo propriamente dito começou quando eu tinha já quase 11 anos (para mais detalhes, ver: http://allthatmattersmaddy32.blogspot.pt/2012/12/por-que-nao-acredito-em-deus-reeditado.html), mas só mais tarde me interessei pelo estudo da evolução e da origem da vida.
Os meus pais também nunca me obrigaram a ter aulas de religião e moral, pois queriam que eu fizesse as minhas próprias escolhas, achando que já bastava os contactos que tinha tido em pequena, não queriam que me impusessem a religião nas aulas e pensaram até que as aulas de religião e moral me fariam odiar a religião e os religiosos, pois já tinham ouvido muitas queixas da conduta dos professores, e isso eles também não queriam (e eu concordo, fomentar o ódio seja a quem ou ao que for numa criança é péssimo). Isso gerou algum conflito com professores, mas nada que não acabasse por se resolver a bem.
A estranha devoção dos meus colegas sempre me fez uma certa espécie, até quando ainda não era propriamente ateia. Sair da cama de propósito e ajoelhar para rezar. Rezar, rezar, rezar sem nunca obter resposta... Enfim! Quando tinha uns 12 anos concluí definitivamente que não havia evidências para a existência de deus e que, mesmo os que aceitavam o que a Bíblia dizia como facto, faziam-no por fé (ver evidências que me podem converter: http://allthatmattersmaddy32b.blogspot.pt/2014/06/porque-nao-acredito-em-deus-parte-2.html). Mas para eles era facto... Para mim acreditar sem "provas" (bem, mais propriamente evidências) não era maneira de se decidir fosse o que fosse relativamente à realidade. A questão do mal também influenciou - um deus infinitamente bom, que nos ama não comete as atrocidades que ele cometeu, nem deixa atrocidades acontecerem, portanto, esse deus não existia e quanto muito podia existir um deus mau, que eu não iria venerar. Agora (e já há muito tempo) essa questão é secundária no meu ateísmo - eu prefiro focar-me no facto de não haver evidencias para a existência de deus e haver evidências que contrariam os contos de fadas da Bíblia como o Génesis. Noutro texto eu escrevi que quando cheguei a este ponto teria 15, 16 anos, mas penso que foi mais cedo (13, 14 anos). Depois, aos 15 anos, começou o interesse no estudo da origem e evolução da vida e esse foi o pico do "boom" de descrença e aversão à ideia (completamente infantil) de deus. A partir daí, até cerca de meados de 2011 não pensei muito mais no assunto. Mas quando voltei à questão da (in)existência de deus, voltei à carga...
P.S. Na minha família há muitos ateus e pouco devotos; pergunto-me se será em parte genético.
Desde garota que os meus pais nunca me ensinaram criacionismo, antes pelo contrário, ensinavam que descendíamos de um animal tipo macaco e que a vida na terra já evoluíra. Encorajaram-me a pesquisar sobre outras religiões, incluindo religiões da antiguidade, e nunca me impuseram uma crença em deus, até porque os meus pais eram agnósticos - no sentido de que normalmente me diziam "não sei" (acho que, pelo menos agora, são ateus - pelo menos o meu pai). Também não eram muito de ir à igreja de um modo geral. No entanto, tinha uma madrinha muito católica, que pressionou a minha mãe, dizendo-lhe que seria bom para a minha formação, etc., para que eu fosse à igreja (e até para ela a substituir durante uns tempos na catequese quando esteve doente). Assim, eu acabei por, durante cerca de um ano e meio ao todo, ir à missa mais ou menos regularmente e à catequese, portanto também tive a minha quota parte de contacto com o cristianismo (católico, felizmente), ainda que muito menos do que a maioria dos ateus que conheço (pessoalmente e não). O meu ateísmo propriamente dito começou quando eu tinha já quase 11 anos (para mais detalhes, ver: http://allthatmattersmaddy32.blogspot.pt/2012/12/por-que-nao-acredito-em-deus-reeditado.html), mas só mais tarde me interessei pelo estudo da evolução e da origem da vida.
Os meus pais também nunca me obrigaram a ter aulas de religião e moral, pois queriam que eu fizesse as minhas próprias escolhas, achando que já bastava os contactos que tinha tido em pequena, não queriam que me impusessem a religião nas aulas e pensaram até que as aulas de religião e moral me fariam odiar a religião e os religiosos, pois já tinham ouvido muitas queixas da conduta dos professores, e isso eles também não queriam (e eu concordo, fomentar o ódio seja a quem ou ao que for numa criança é péssimo). Isso gerou algum conflito com professores, mas nada que não acabasse por se resolver a bem.
A estranha devoção dos meus colegas sempre me fez uma certa espécie, até quando ainda não era propriamente ateia. Sair da cama de propósito e ajoelhar para rezar. Rezar, rezar, rezar sem nunca obter resposta... Enfim! Quando tinha uns 12 anos concluí definitivamente que não havia evidências para a existência de deus e que, mesmo os que aceitavam o que a Bíblia dizia como facto, faziam-no por fé (ver evidências que me podem converter: http://allthatmattersmaddy32b.blogspot.pt/2014/06/porque-nao-acredito-em-deus-parte-2.html). Mas para eles era facto... Para mim acreditar sem "provas" (bem, mais propriamente evidências) não era maneira de se decidir fosse o que fosse relativamente à realidade. A questão do mal também influenciou - um deus infinitamente bom, que nos ama não comete as atrocidades que ele cometeu, nem deixa atrocidades acontecerem, portanto, esse deus não existia e quanto muito podia existir um deus mau, que eu não iria venerar. Agora (e já há muito tempo) essa questão é secundária no meu ateísmo - eu prefiro focar-me no facto de não haver evidencias para a existência de deus e haver evidências que contrariam os contos de fadas da Bíblia como o Génesis. Noutro texto eu escrevi que quando cheguei a este ponto teria 15, 16 anos, mas penso que foi mais cedo (13, 14 anos). Depois, aos 15 anos, começou o interesse no estudo da origem e evolução da vida e esse foi o pico do "boom" de descrença e aversão à ideia (completamente infantil) de deus. A partir daí, até cerca de meados de 2011 não pensei muito mais no assunto. Mas quando voltei à questão da (in)existência de deus, voltei à carga...
P.S. Na minha família há muitos ateus e pouco devotos; pergunto-me se será em parte genético.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Preguiça
A minha preguiça é altamente resistente. Há cerca de 4 anos que não me dava um ataque tão grande, de tal maneira que nem tenho conseguido ir às aulas. Pouco estudo, pouco trabalho, mas tudo tem os seus limites. E eu ainda por cima tenho alguns problemas de atenção/concentração e em manter o interesse nas tarefas (imaginem, se assim não fosse, quais seriam os meus resultados com pouco esforço, se mesmo com isso até são bons?). Eu sei que tenho que combater a preguiça - e hoje já fui às aulas da tarde, mas de manhã vai ser impossível como isto anda. Bolas...
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Nick Lane: Origem da vida numa fonte hidrotermal
(Energy at the origin of life -- Nick Lane -- How Life on Earth Began event - https://www.youtube.com/watch?v=gb7pZyks_HE)
Cenário possível e plausível para a origem da vida numa fonte hidrotermal alcalina, por acoplamento a um gradiente de protões natural.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Algoritmos evolutivos e o William Dembski (sim, outra vez)
Certo criacionista de trazer por casa, comentou que os algoritmos evolutivos não modelam (bem, ele utilizou o termo "provam", para ser mais exacta) "evolução cega", como ele tanto gosta de aventar, referenciando um artigo de um site criacionista, o qual se refere a um artigo do Dembski (e seus colaboradores), que, segundo eles, passou por revisão de pares (http://bio-complexity.org/ojs/index.php/main/article/view/50). O problema é que a "revista científica" na qual foi publicado é nada mais nada menos do que uma "revista" chamada "Bio-complexity", que é basicamente um website gerido por criacionistas, em que criacionistas publicam coisas revistas por outros criacionistas (tipo "Journal of Creation Research", mas com um nome mais bonitinho). Que eu saiba, ele (o criacionista) não é nenhum programador informático nem sequer biólogo (e muito menos isso!). Vamos ver, então, o que um verdadeiro programador tem a dizer sobre o assunto:
«There are several statements in the paper that suggests the authors have some fundamental misunderstandings of genetic algorithms and the observed phenomena on which they are based. As early as page 2, for example, is this:
The Darwinist claim is that no such assistance is required. Rather, natural selection is innately capable of solving any biological problem that it faces.
No “Darwinist” (a term that reflects ID’s creationist roots) claims this. Extinction is known to happen. [Verdade, verdadinha.]
Another, from page 4:
This genome is of a fixed length, always containing the coordinates and connections for the maximum number of interchanges. This simplifies the genetic algorithm because it not [sic] necessary to implement deletion or insertion mutations.
While the design of a GA engine is somewhat simplified by limiting genomes to a fixed length, such a constraint doesn’t prevent modeling insertions and deletions. Further, the lack of insertion and deletion mutations actually makes finding a solution more difficult by limiting the number of evolutionary mechanisms that can be brought to bear.
[Num algoritmo genético, já muita coisa é simplificada - ver aqui um plausível exemplo: http://allthatmattersmaddy32b.blogspot.pt/2014/08/mais-baboseiras-do-william-dembski.html. Que mais é novidade?]
On page 5 we find:
Does the genetic algorithm have the ability to solve the problem given only a description of the same?
This question demonstrates a profound confusion about what is being modeled. The authors almost seem to be suggesting that they expect a GA to find a solution without any feedback whatsoever. That would certainly fail to reflect the biological situation.
In fact, the fitness function is a description of the problem domain, corresponding to the environment of biological evolution. In that sense a GA does have the ability to solve some types of problems “given only a description of the same.”»
[Frases do texto original destacadas a negrito por mim.]
O autor do texto continua:
«“Effect of count of interchanges”
The authors claim that having an explicit count of the number of non-fixed nodes in the virtual genome “shifts the distribution of solutions.” They also note that Thomas’s code ensures that a minimum number of non-fixed nodes (“interchanges”) are present.
My implementation contains no such explicit count nor does it specify any minimum number of non-fixed nodes, yet it routinely converges on an optimal or near-optimal solution.
“Effect of restricted initialization”
According to the authors, Thomas’s code restricts the initial location of non-fixed nodes to a smaller area than the full 1000×1000 grid allowed by the simulation. Again, my implementation has no such restriction and yet it routinely converges on an optimal or near-optimal solution.»
Está-me cá a parecer que mais uma vez os criacionistas só disseram asneiras (e mentiras). Que novidade!
O ónus da prova (The Atheist Experience)
(The Idiot Theist - The Atheist Experience 776 - https://www.youtube.com/watch?v=7gfl0pPPrdA)
Adivinhem... o ónus da prova é do crente! Que novidade... Bem, para os crentes é.
Subscrever:
Mensagens (Atom)