quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O cérebro é verde, veio uma vaca e comeu-o

O Ludwig Krippahl escreveu sobre mais uma treta, desta vez, sobre as parvoíces do "life coach" Gustavo Santos, portanto relacionada com a minha área de estudo actual. Não resisti a meter a colher. O meu comentário:

«Descobri que era um homem feliz quando percebi que a minha felicidade apenas dependia de mim»
«Tudo o que vale a pena nesta vida é aquilo que sentimos; o que pensamos [...] é mau entretenimento.»
Para onde foi o cérebro dele? Era verde, veio uma vaca e comeu-o? 
Quanto a equacionar "felicidade" com sermos a pessoa mais importante da nossa vida (egoísmo), pode haver uma associação, mas pode não ser causal no sentido que ele quer implicar, e é ainda provável que ser altruísta crie felicidade (1,2).

1. http://www.psychologytoday.com/blog/the-hidden-brain/201003/happiness-and-selfishness-paradox
2. http://www.econstor.eu/bitstream/10419/20786/1/dp1487.pdf 

Acedam ao texto do Ludwig, repleto de humor e, como sempre, crítica: 


Treta da semana (atrasada): Umbiguismo.
Algumas pessoas, raras, são tão geniais e têm um pensamento tão avançado para a sua época que muitos dos seus contemporâneos, não conseguindo alcançar tal visão, as julgam palhaços. Pessoas como Copérnico, Galileu, Darwin e Batatinha, por exemplo. Gustavo Santos é mais um nome a acrescentar a esta l…
KTRETA.BLOGSPOT.COM





quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A (in)utilidade de sentir remorso

Remorso é um sentimento negativo forte (semelhante a tristeza) devido a um acto que a pessoa considera errado (ex.: insultar alguém, ser injusto, etc.). Embora muitas vezes os termos sejam usados como sinónimos, remorso não é o mesmo que arrependimento
Existem pacientes psiquiátricos (com transtorno anti-social e transtorno narcisista) que são incapazes de sentir remorso e só se arrependem se as suas acções os prejudicarem. As tendências criminosas de um paciente com transtorno anti-social são óbvias para quem ler a descrição. A expressão "matar a sangue frio" vem precisamente da falta de reacção emocional de certos assassinos perante a aflição das suas vítimas. Possuem em défice emocional que se estende a ponto do assassino não sentirem remorso pelos seus crimes. 
Pelo que tenho observado, quando ocorre um crime violento, como um assassinato, por exemplo, muita gente (*) tende a focar-se tanto ou mais no facto do criminoso não sentir remorso do que no facto dele ter morto ou ferido alguém. E agora pergunto-me: qual a utilidade do criminoso sentir remorso perante um crime de assassinato? Absolutamente nenhuma. O que está feito está feito. Isso não vai  certamente ressuscitar ninguém. É pura e simplesmente inútil. Metam isto na cabeça: o problema é que o criminoso matou alguém, não é que não sentiu remorsos. 


Nota: alguns exemplos da web (entre muitos outros) sobre o caso da Jodi Arias:  https://www.facebook.com/HLN/posts/540736819305723http://www.celebdirtylaundry.com/2013/jodi-arias-interview-no-remorse-guilty-first-degree-murder-travis-alexander-fox-video-0509/http://www.hlntv.com/article/2014/11/04/jodi-arias-courtroom-observations-death-penalty-retrialhttp://statement-analysis.blogspot.pt/2013/05/jodi-arias-worst-mistake-of-my-life.htmlhttps://gma.yahoo.com/arias-had-no-remorse-prosecutor-195955073--abc-news-topstories.html 

O que o Francisco Tourinho devia ler sobre conhecimento a priori


Certamente que quem acompanha este famigerado (para alguns) blog, sabe do debate entre o Francisco Tourinho e um oponente ateu (o Antônio Miranda). Confesso que passei algumas partes à frente (é que o Francisco Tourinho dá-me tédio), mas revi agora uma pequena parte em que ele falava do conhecimento à priori numa tentativa de contrapor o que o António disse (e muito bem) sobre o facto de precisarmos de evidências de modo a determinar se uma hipótese corresponde à realidade - de outro modo, não seriam necessárias análises laboratoriais para pesquisa de marcadores tumorais (o cancro existiria no paciente porque o médico achou que sim e pronto, e por isso pode encher o paciente de medicamentos com efeitos secundários terríveis, etc.). Eis o que ele (Francisco Tourinho) precisa de ler:

(clicar na imagem)
Que Treta!
Pelas minhas contas, este é o 400º post desta rubrica.
Era para ser sobre o Gustavo Santos, mas vou deixá-lo
para o 401º e ressuscitar a discussão sobre o
conhecimento a priori. Não só para evitar estragar a
efeméride com o Gustavo Santos mas também porque
descobri que 71% dos filósofos julgam que o…

O mais importante é que a diferença que os filósofos apresentam entre conhecimento a posteriori e a priori é ilusória - em qualquer dos exemplos que se apresentem são sempre necessários dados/observações empíricas: 

«O conhecimento é a priori se puder ser obtido sem dados empíricos adicionais e a posteriori se for necessário obter mais dados. Um exemplo clássico de conhecimento a priori é “nenhum solteiro é casado”. Para um dado conceito de solteiro e casado, esta afirmação é evidentemente verdadeira mesmo sem ser preciso perguntar aos solteiros se são casados. Um exemplo de conhecimento a posteriori será “nenhum corvo é branco”. Para um certo conceito de corvo, não é evidente se isto é verdade ou não e precisamos de ir observar corvos para tentar testar a hipótese. 
Mas esta distinção é ilusória porque a compreensão de todos os conceitos depende de dados empíricos e o que caracteriza uma proposição como verdadeira a priori é simplesmente a decisão arbitrária de considerar que a informação necessária para concluir que é verdadeira faz parte dos conceitos. Vou dar alguns exemplos deste problema. Primeiro, “nenhum solteiro é casado”. A experiência da Ana levou-a a formar um conceito de solteiro com sendo o de uma pessoa que não é casada. Assim, a Ana não precisa de mais informação para concluir que a afirmação é verdadeira. Mas o Pedro é advogado e trata de muitos casos de emigrantes e imigrantes. Na experiência dele, uma pessoa pode ser casada num país mas esse casamento não ser legalmente reconhecido noutro, onde é considerada solteira. Portanto, para o Pedro, essa afirmação não é verdadeira. É possível alguém ser solteiro e casado ao mesmo tempo.»

Adenda: Mais do mesmo autor sobre filosofia (desta vez sobre a crença básica segundo Plantinga): http://ktreta.blogspot.pt/2014/07/plantinga-1-crenca-basica.htmlhttp://ktreta.blogspot.pt/2014/02/treta-da-semana-passada-os-argumentos.html 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sobre deuses e hipóteses...

Normalmente uma conversa com um criacionista vai dar normalmente a um beco sem saída em que eu tenho que lhe explicar conceitos básicos como, por exemplo, o que é um fóssil de transição, que o DNA é uma molécula que reage com outras, entre outros. Mas desta vez, isso não aconteceu, até porque o criacionista (por estranho que pareça) era biólogo.  

Eu: «...para mim a perspectiva mais racional é a de ter reservas [quanto à existência/inexistência de deus(es)], pois ao longo da história da ciência muito do que se dava como certo, mudou ou descobriu-se ser impreciso.»

Daniel:  «...A história da ciência não tem nada a ver com isso, porque a ciência trata de fenômenos naturais, e Deus não é nada natural. Eu diria que a ciência não é nem crente, nem atéia nem agnóstica. Com relação a esse assunto, ela simplesmente não faz ideia do que estamos conversando.»

Como, penso eu de que, tem sido bem demonstrado para quem acompanha este blog, isso não é bem assim:

Eu: «A ciência não estuda deuses, unicórnios, fadas, etc., directamente. Mas o que se descobre através do método científico pode dar para descartar/apoiar hipóteses relacionadas com deuses e religião – que se fossem confirmadas tornariam a existência dos mesmos deuses mais provável/plausível e que, sendo descartadas e substituídas por outras, a coisa funciona ao contrário.»

Daniel: «Okay, mas você está esquecendo do ponto nevrálgico. A ciência não estuda deuses ou fadas nem direta, nem indiretamente. Você está cometendo um erro bem básico: achar que as explicações científicas podem interferir em conceitos e padrões filosóficos não-científicos. Você pode provar para um crente que alega ter sido curado de, digamos, dor de cabeça, que na verdade foi o ibuprofeno que eliminou a dor por ter agido nas sinapses nervosas, que ainda assim o sujeito vai continuar fazendo saltos filosóficos rumo a Deus. “Foi o ibuprofeno que curou você” tem como resposta: “Porque Deus quis usar o ibuprofeno, embora pudesse usar outra coisa ou nada.” Que método, pensamento ou lógica científica responde a esse argumento? Nenhum, oras. As análises são totalmente separadas. A ciência não se envolve com essa última declaração, limitando-se a dizer que “o ibuprofeno, administrado ao paciente X, promoveu tal resultado.” Por sinal, eu defendo a tese do ibuprofeno aqui, mas posso aceitar o segundo argumento por fé, embora fazendo cara feia de “que coisa desnecessária…”.

Com isso, defendo que os métodos científicos são plenamente válidos para explicar o que quer que seja com relação ao natural, mas se alguém quiser apontar como causa daquele efeito Deus, gnomos, fadas, alienígenas tecnologicamente avançados ou o que quer que seja, a ciência simplesmente se cala porque ela não pode dar nome ou identidade à causa.»
Eu: «Temos aqui um problema: Sim, é verdade que as pessoas que acreditam em deus tendem a tentar que essas hipóteses escapem a qualquer escrutínio (na verdade, não há limites para o que se inventa sobre deuses e o seu exemplo ilustra bem isso), mas isso não quer dizer que, por exemplo, evidências de ancestralidade comum não descartem a criação especial (pelo menos como descrita na Bíblia). Não estou a dizer que com isso podemos descartar todos e quaisquer deuses, só um deus muito específico (o deus bíblico).»
Daniel: «Então, vamos fazer um exercício: forneça três evidências científicas de que Deus (ou uma Inteligência) NÃO está evidenciado na natureza, por favor.
De fato, a ancestralidade comum não descarta uma criação especial. Mas olha só, se você vai defender uma criação especial, então pergunto: porque o criador teria criado um processo tão brutal e cruel como a seleção natural por morte? Por que não criar um mecanismo que não envolvesse isso? A visão que apresento elimina essas perguntas da cosmovisão, porque Deus teria criado tudo “muito bom” (ou perfeito) sem esses processos, que foram introduzidos por nós, humanos. E, se você pensar, a promessa cristã é, basicamente, o final desse processo de seleção natural por morte e sofrimento, não só para os humanos, mas para toda a criação. É uma explicação com começo, meio e fim.»
Eu: «Eu queria dizer que descarta a criação especial Bíblica (é claro, que pode ser criação através da evolução, mas, como já vimos, não faz sentido). Como eu dizia, descarta-se um deus muito específico. Não podemos descartar cada deus ou cada versão que vier à cabeça do crente, pois são tantos quantos se podem inventar, e a imaginação humana é bastante fértil.»
Daniel: «Mas calma aí, se você descarta a criação especial bíblica, que alternativa você dá para uma criação especial que envolva processos racionais coerentes?»
Eu: «Na minha perspectiva, nenhuma que envolva deuses é útil e nenhuma é mais que pura especulação infundada ou invenção. A minha única alternativa é mesmo a evolução, mas essa não envolve processos “racionais” (como se fosse algo dirigido inteligentemente), mas sim processos naturais (o que é racional é concluir que evoluímos). E eu já disse que não dá para excluir todo e qualquer deus, mas versões específicas. Uma coisa de cada vez.
O máximo que eu posso dizer é que, em toda a história da ciência ainda não foi descoberta uma única evidência que apontasse para um deus (ou quando pensavam que sim, afinal era outra coisa) e que deuses até agora não são necessários para explicar seja aquilo que for que observamos.»
Nota: para ver a conversa toda, deve-se aceder aqui: https://considereapossibilidade.wordpress.com/pergunte/

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O cristianismo combate tendências criminosas: mito ou facto?

O criminologista Byron R. Johnson, no seu mais recente livro More God, Less Crime: Why Faith Matters and How It Could Matter More (Templeton Press) documenta os resultados de uma série de estudos sobre a influência da religião sobre a criminalidade, estudos esses que parecem apoiar os seus benefícios na redução da mesma. Mas (há sempre um "mas" quando se trata de religião)...Primeiro, é de notar que a religião pode ser eficaz em combater o crime, mas não é absolutamente necessária para tal. Nem, provavelmente, o cristianismo especificamente. Por exemplo a religião "nação do islão" ("nation of islam" uma facção muito específica do islão) é pacifista, sendo uma dessas razões pelas quais atrai pessoas que antes não eram particularmente religiosas (http://www.nme.com/news/snoop-dogg/43135). E há ainda o movimento rastafári (http://atheism.about.com/library/glossary/general/bldef_rastafarians.htm) e o Budismo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Mahatma_Gandhi), uma religião não-teísta - sim, sim, eu sei que já houve budistas a fazerem explodir coisas, mas também já houve católicos a queimarem pessoas vivas. Gostaria de ver isto confirmado, mas a natureza destas religiões, como entendida pelos seus praticantes, é já bastante sugestiva. 
Mais ainda, esta frase do autor intriga-me - "A minha avó diria que este livro não me diz nada que eu já não sabia." Será que o autor devido às suas fortes raízes cristã é tendencioso, isto é, está a mostrar apenas um lado da história, ou seja, apenas estudos que confirmam o seu ponto de vista e não os que falham em demonstrá-lo ou que o contradizem? Dá para suspeitar. 
Será que é a crença em deuses, em espíritos ou na reencarnação que faz com que as pessoas tenham menos tendências criminais ou é o apelo ao "amor ao próximo" ou o sentido de comunidade, que pode ajudar no desenvolvimento emocional e social? As duas últimas fariam sentido. 
Este texto não respondeu à questão do seu título, no entanto, levantar as hipóteses certas é fundamental no processo de adquirir conhecimento - no processo científico. 

Referência: 
Is God an Effective Crime Fighter?, Rod Dreher. Templeton Report, 29 de Junho, 2011 (http://www.templeton.org/templeton_report/20110629/index.html) - Via "Darwinismo" (sim, onde se lê algo parecido com um elogio à religião, o Mats mete a colher).