segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O cristianismo combate tendências criminosas: mito ou facto?

O criminologista Byron R. Johnson, no seu mais recente livro More God, Less Crime: Why Faith Matters and How It Could Matter More (Templeton Press) documenta os resultados de uma série de estudos sobre a influência da religião sobre a criminalidade, estudos esses que parecem apoiar os seus benefícios na redução da mesma. Mas (há sempre um "mas" quando se trata de religião)...Primeiro, é de notar que a religião pode ser eficaz em combater o crime, mas não é absolutamente necessária para tal. Nem, provavelmente, o cristianismo especificamente. Por exemplo a religião "nação do islão" ("nation of islam" uma facção muito específica do islão) é pacifista, sendo uma dessas razões pelas quais atrai pessoas que antes não eram particularmente religiosas (http://www.nme.com/news/snoop-dogg/43135). E há ainda o movimento rastafári (http://atheism.about.com/library/glossary/general/bldef_rastafarians.htm) e o Budismo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Mahatma_Gandhi), uma religião não-teísta - sim, sim, eu sei que já houve budistas a fazerem explodir coisas, mas também já houve católicos a queimarem pessoas vivas. Gostaria de ver isto confirmado, mas a natureza destas religiões, como entendida pelos seus praticantes, é já bastante sugestiva. 
Mais ainda, esta frase do autor intriga-me - "A minha avó diria que este livro não me diz nada que eu já não sabia." Será que o autor devido às suas fortes raízes cristã é tendencioso, isto é, está a mostrar apenas um lado da história, ou seja, apenas estudos que confirmam o seu ponto de vista e não os que falham em demonstrá-lo ou que o contradizem? Dá para suspeitar. 
Será que é a crença em deuses, em espíritos ou na reencarnação que faz com que as pessoas tenham menos tendências criminais ou é o apelo ao "amor ao próximo" ou o sentido de comunidade, que pode ajudar no desenvolvimento emocional e social? As duas últimas fariam sentido. 
Este texto não respondeu à questão do seu título, no entanto, levantar as hipóteses certas é fundamental no processo de adquirir conhecimento - no processo científico. 

Referência: 
Is God an Effective Crime Fighter?, Rod Dreher. Templeton Report, 29 de Junho, 2011 (http://www.templeton.org/templeton_report/20110629/index.html) - Via "Darwinismo" (sim, onde se lê algo parecido com um elogio à religião, o Mats mete a colher). 

O ego dos criacionistas (Que vergonha!)

Tenho comentado no "Sandwalk", desmentindo e apontando os erros dos criacionistas que lá comentam (os portugueses já estão muito "vistos"). A certo ponto, um comentador alvitrou que eu podia ser uma professora na Universidade do Algarve com 69 publicações na área da biologia. Eu desmenti-o, claro (não quero usurpar a identidade de ninguém). Expliquei que era estudante de psicologia, com alguma formação em ciências laboratoriais (incluindo genética molecular), mas que não era profissional. Pelo que me foi dado a entender, alguns criacionistas (pelo menos um) são profissionais. Se são bons ou não, isso é outra história, mas são. Imaginem, caros leitores, o que fará o facto de terem sido "descascados" por alguém que não é profissional da área. Se têm alguma vergonha, então ainda há esperança. Se não, deviam ter.  




sábado, 13 de dezembro de 2014

Behe, Gauger e Axe e a evolução de proteínas (outra vez)

Num "estudo" experimental, publicado online na revista criacionista "Bio-complexity", Gauger e Axe pre-especificaram sete mutações (substituições de nucleótidos), pressupondo que necessitavam mesmo de ser "aquelas" mutações, ou, pelo menos, aquela função, e ao que parece estimaram o tempo para esse grupo específico de mutações emergir e a respectiva probabilidade. Claro, que, segundo eles, isto é tudo muito improvável, demorando imenso, mas imenso tempo (que a vida na Terra não teve). E, essa suposição ajudou-os a "demonstrar" como é improvável o surgimento dessa função ou algo semelhante que também serviria no momento em que evoluiu ... mas o que eles calcularam era apenas a probabilidade da emergência daquela função. Foi uma manipulação inteligente para limitar o "alvo", diminuindo a probabilidade, para depois generalizar erroneamente.

Notei também que eles mantiveram-se vagos no que toca ao sentido de "inovações" (de propósito?) - mas ao que parece agora estão preocupados com a emergência da função antes de aperfeiçoada (ou não?). E, (não me canso de escrever isto) as proteínas eram primas. Nada disto aconteceu. Uma não evoluiu para a outra. E isto não é irrelevante, pois os valores que eles determinaram foram especificamente para este caso. Daah! isto não aconteceu. 
Isto traz-me à memória um estudo (Durrett, R & Schmidt, D. 2008. Genetics 180: 1501-1509) em que eles e Behe pegaram para tentarem justificar as probabilidades infinitamente reduzidas e os tempos de espera infinitamente longos para o aparecimento de 2 mutações, que tornaria a evolução virtualmente impossível. Só que isso seria assim se não houvessem uma data de genes com vários "sites" no genoma humano (e dos outros mamíferos) - ou seja, se não estivessem a pre-especificar duas mutações para calcularem a sua probabilidade outra vez...  

Nota: Mais sobre este assunto: http://sandwalk.blogspot.pt/2014/12/ann-gauger-moves-goalposts.htmlhttp://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2644970/http://apomorph.blogspot.pt/2012/07/axe-and-gauger-respond-in-tandem.html 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Ann Gauger NÃO testou nada parecido com evolução (ou Emergência e evolução da promiscuidade enzimática e os disparates de Ann Gauger)


Sandwalk: Ann Gauger moves the goalposts: «We've been discussing Ann Gauger's claim that evolution is impossible because she was unable to transform a modern enzyme into another related one by changing a small number of amino acids.
I pointed out that this is not how evolution works. In some cases, you can easily show that two enzymes with different specificities can evolve from a common ancestor that could carry out both reactions.
(...)
Turns out that changing one related enzyme into another with a different specificity wasn't the goal of her experiment. Here's what she was really trying to do ...
The Big Problem

Here's the big problem -- the arrival of novelty.

Novelty or innovation means the appearance of something not already present. It's the opposite of promiscuity. So a way to create novelty is absolutely essential to explain modern cells, as I will demonstrate.

...

Here's the heart of the matter. Promiscuity cannot solve the problem of novelty. Mutation, natural selection, and drift cannot drive the creation of novelty of all those new protein folds. That's what Doug Axe and I have been testing all along, from Doug Axe's 2004 paper to this most recent one. Based on our experiments, the problem of how innovation originates remains unsolved.»


O meu comentário: "...provided the capacity for the reaction already exists in the starting enzyme..." - Acho que é com essa parte (e não com o que vem a seguir) é que a Gauger se "preocupa" - pelo menos agora. Mas funcionalidade imperfeita/ baixa pode aparecer "por acaso" (sem selecção) (1). E como Paul McBride disse: 

«Gauger: "Based on our experiments, the problem of how innovation originates remains unsolved."
"They (Gauger and Axe 2011) have confirmed that evolution isn't a conscious process that picks specific proteins and makes them evolve into specific other proteins.» Gauger e Axe não testaram nenhuma hipótese evolutiva nem nada parecido com evolução. 

1. http://www.nature.com/ng/journal/v37/n1/abs/ng1482.html

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Lidar com as diferenças

Agora mesmo deparei-me com isto:

«In 1980, researcher Lois Raynor studied adopted adults and their adoptive parents and reported her findings in The Adopted Child Comes of Age. She found that the more they saw themselves as similar to each other, the happier they were. For example,
- Of adopted adults who said they were “very much like” their adoptive parents, 97 percent said their adoption experience was satisfactory.
- Of adopted adults who said they were “unlike” their adoptive parents, 52 percent said their adoption experience was satisfactory.
- Of those adoptive parents who thought their adopted children were “like” them in appearance, interests, intelligence, or personality, 97 percent were happy with the adoption experience.
- Of those adoptive parents who thought their adopted children were “unlike” them in appearance, interests, intelligence, or personality, 62 percent were happy with the adoption experience.»

Sim, é difícil tratar como filho alguém que percebemos como muito diferente de nós (e que, provavelmente, é, uma vez que nem sempre os filhos biológicos são semelhantes na maioria dos aspectos, e, muito menos é de esperar que  um filho adoptivo o seja). Mesmo que haja selecção de acordo com as características físicas dos próprios pais adoptivos (uma espécie de selecção por parentesco), é de esperar que sejam diferentes em muitos aspectos (psicológicos) muito mais importantes para as relações familiares. Podemos acabar por dar menos atenção à criança, o que certamente não vai ajudar nada a que se desenvolvam concordância ou semelhanças, quer em gostos, quer em expressividade e interesses. Mas devemos lembrar-nos que, se fazemos escolhas, temos que ponderar, pois algumas são definitivas.

Nota: Ver: "FamilyEducation" - http://life.familyeducation.com/adoption/adoptive-parents/45804.html#ixzz3LcbsCiGT

Crianças adoptadas parecem-se com os pais adoptivos

Crianças adoptadas parecem-se com os pais adoptivos, sim senhor. Mas é sobretudo devido ao facto de aprenderem as expressões faciais com os pais adoptivos (que tendem a ser expressivos na presença dos filhos) tendendo a ser muito semelhantes, e, se as semelhanças se mantiverem (e é bem provável) os filhos vão aprender com eles e os filhos deles com eles and so on and so on. É claro que há países em que podes escolher a cor da pele, a cor do cabelo e dos olhos, a etnia e isso também ajuda, se os pais seleccionarem pelas parecenças consigo próprios (uma espécie de selecção por parentesco) mas a explicação científica para outros casos reside sobretudo na aprendizagem das expressões faciais.  

Nota: Ver mais: http://blog.americanadoptions.com/why-do-adopted-children-look-like-their-parents/