terça-feira, 11 de novembro de 2014

Legionella em Portugal

A bactéria Legionella pneumophila é responsável pela Doença dos Legionários, uma pneumonia grave. A infeção transmite-se por via respiratória, através da inalação de gotículas de água ou por aspiração de água contaminada.
Mortes por Legionela em Portugal:
«Um dos doentes infetados com Legionella morreu hoje no hospital de Vila Franca de Xira, confirmou à Lusa uma fonte oficial do hospital. O número de pessoas contaminadas subiu para 66.
O director clínico do hospital de Vila Franca de Xira, Carlos Rabaçal, confirmou esta manhã a morte de uma das pessoas infectadas, um homem de 59 anos.
“O doente que faleceu já tinha morbilidades associadas, doenças respiratórias, doença pulmonar obstrutiva crónica, era fumador e tinha uma pneumonia, ou seja, já tinha uma doença do foro pneumológico, o que fez com que o quadro clínico fosse mais complicado”, detalhou o responsável clínico.
Dos 66 doentes infectados, 50 estão no hospital Reynaldo dos Santos, de Vila Franca de Xira, e os restantes 16 em vários hospitais de Lisboa, disse à Lusa uma fonte oficial da Administração Regional de Saúde de Lisboa.
Os responsáveis de Saúde estão reunidos para analisar a situação, devendo ser transmitida uma posição oficial sobre este tema por volta da hora de almoço, sendo possível a convocação de uma conferência de imprensa ou a emissão de um comunicado.
«Os casos são todos oriundos de Vila Franca», sublinhou esta fonte oficial, afastando assim a hipótese de contaminação múltipla em vários pontos da zona da Grande Lisboa.»
Mais uma vez: transmite-se por via aérea. Não espirrem para cima uns dos outros e protejam os outros e as superfícies dos vossos espirros. Lavem as mãos.  

E lembrem-se de que quanto mais se reproduz mais provável é que evolua resistência ou até novas formas de transmissão. Portanto, não espalhem as vossas bactérias. 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Religião, transtornos de personalidade (e o seu valor adaptativo)

Como referi anteriormente, os transtornos de personalidade podem ter valor adaptativo (até mesmo valor selectivo). Ainda assim, são considerados desvios do que era de esperar perante determinada proveniência socio-cultural (ex: Portugal ou China) e pela confusão que geram, que muitas vezes acaba por os afectar também negativamente, são considerados transtornos, portanto, patologias.
Hoje deparei-me com um estudo sobre correlações da psicopatia com elementos do dia-a-dia, tais como política e religião. Em termos de política tendem a ser conservadores e em termos de religião, tendem a não acreditar em deus (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=belief+in+god+psychopathy). E porque será? Não, não é porque são imorais e por isso não querem seguir uma religião ou um deus. Nada disso. A psicopatia (primária) tem sido associada com reacções de medo e ansiedade diminuídas, pelo que é possível que seja a falta de medo da morte ou da desgraça que os faça não se irem esconder atrás das saias dos padres ou rastejar aos pés de um altar poeirento – e é claro que isso não é preciso para se ser ateu, nem há nada que indique que a maioria dos ateus são psicopatas. Então, com o discernimento menos toldado pelas emoções (uma das características mais adaptativas do psicopata), e muitas vezes com uma boa educação académica, o que leva um psicopata nessas condições a tornar-se religioso? Simples: razões de índole prática. Se isso o ajudar a integrar-se, ou seja, a passar despercebido, ou se achar que não perde nada em viver como se acreditasse, acreditando que é possível existir deus ou uma vida para além da morte (teísmo agnóstico) – possível é, só não há evidências de que exista e é pouco provável dadas as observações. Para o narcisista * é algo de semelhante, mas com a nuance de que o narcisista com o seu problema com o processo de valorização/desvalorização, pode crer em deus e seguir uma religião (sobretudo por motivos semelhantes ao do psicopata, pois também eles são emocionalmente superficiais e pouco introspectivos) e com o tempo desvalorizará o conceito de deus (cristão ou outro) e deixará de querer seguir essa religião.


*Nota: Curiosidade: Celebridades são realmente mais narcisistas do que a população em geral (http://www.prnewswire.com/news-releases/usc-study-celebrities-really-are-more-narcissistic-than-the-general-public-55788882.html).


Hitler, anti-semitismo e religião

Em vários debates, discussões e entrevistas, tem sido levantada a influência de uma doutrina (que deriva das ideias evolutivas de Darwin) chamada darwinismo social, tentando de algum modo relacionar os seus actos com uma visão ateísta.  
Que o Hitler não era muito religioso, provavelmente não, mas se era ateu, isso é discutível. Além disso, o único responsável por essas mortes não foi o Hitler - ele não teria conseguido nada sem a colaboração do povo alemão (na sua maioria católico) - e uma das coisas que ele usou para o manipular foi provavelmente a religião. E uma das coisas que influenciou o seu anti-semitismo provém provavelmente da religião (cristã): "Hitler described his supposedly divine mandate for his anti-Semitism: "Hence today I believe that I am acting in accordance with the will of the Almighty Creator: by defending myself against the Jew, I am fighting for the work of the Lord." In his rhetoric Hitler also fed on the old accusation of Jewish Deicide. Because of this it has been speculated that Christian anti-Semitism influenced Hitler's ideas, especially such works as Martin Luther's essay On the Jews and Their Lies and the writings of Paul de Lagarde. Others disagree with this view. In support of this view, Hitler biographer John Toland opines that Hitler "carried within him its teaching that the Jew was the killer of God. The extermination, therefore, could be done without a twinge of conscience since he was merely acting as the avenging hand of God..."." Para além disso, Hitler acreditava que Jesus os via como uma ameaça para a humanidade (embora ele não se referisse a Jesus como deus): "His [the Jewish person's] life is only of this world, and his spirit is inwardly as alien to true Christianity as his nature two thousand years previous was to the great founder of the new doctrine. Of course, the latter made no secret of his attitude toward the Jewish people, and when necessary he even took to the whip to drive from the temple of the Lord this adversary of all humanity, who then as always saw in religion nothing but an instrument for his business existence.”  (http://en.wikipedia.org/wiki/Religious_views_of_Adolf_Hitler)  
Sim, o Darwinismo social pode ter influenciado o Hitler, mas provavelmente a religião teve um papel mais preponderante relativamente aos seus seguidores, e um papel tão importante relativamente a ele próprio. No meio disto tudo, algo preponderante foram os distúrbios mentais de que Hitler sofria - narcisismo patológico, transtorno antissocial (provavelmente aquilo a que vulgarmente se chama de psicopatia e se enquadra em termos de diagnóstico no subtipo malevolente deste transtorno - Millon, Theodore, Personality Subtypes), esquizofrenia paranóide e instabilidade emocional (http://www.psychologyandsociety.org/__assets/__original/2012/01/Hyland_et_al.pdf). 


Religião vs saúde mental II: Religião não protege da depressão

Relativamente ao tópico da importância da religião para uma boa saúde mental, ao contrário do que os religiosos (especialmente os criacionistas) pregam, a religião não traz grandes benefícios no que respeita à saúde mental (e muito menos a crença religiosa/"espiritual" em si). Isso é mostrado num estudo feito e vários países. A religião em si, não protegia fortemente contra a depressão e não protegia de todo excepto em dois países, enquanto que as crenças sem afiliação religiosa eram um factor de previsão importante. E como explicar outros estudos que indicam que as pessoas religiosas são mais felizes, menos deprimidas? É simples: essas pessoas deixam de ser religiosas. Relativamente à falta de afiliação dos crentes "espirituais", isso pode dever-se à discriminação ou exclusão por parte das comunidades religiosas perante pessoas com tendências para perturbações mentais - mas continuaram a ser crentes. 
Para além de tudo isto (como se não bastasse), os investigadores descobriram que quanto mais forte a crença religiosa, maior o risco de depressão. Os pouco religiosos tinham risco semelhante aos descrentes.    
Concluindo... não a religião não protege da depressão (nem de mais nada, que se saiba) e as crenças religiosas em si são um factor de risco, não só para a depressão, mas também para manifestações psicóticas e para o agravamento de sintomas da esquizofrenia, como referido anteriormente.
E pretendem alguns (felizmente poucos, pelo que me é dado a conhecer) profissionais de saúde mental implementar o uso terapêutico do incentivo à religiosidade ou usar as crenças religiosas do paciente (o que pode fortalecê-las)? Tenham juízo...

Nota: para mais informação aceder: http://www.patheos.com/blogs/epiphenom/2013/05/religion-doesnt-seem-to-protect-against-depression.html  

Estudos relacionados

- Leurent, B., Nazareth, I., Bellón-Saameño, J., Geerlings, M., Maaroos, H., Saldivia, S., Švab, I., Torres-González, F., Xavier, M., & King, M. (2013). Spiritual and religious beliefs as risk factors for the onset of major depression: an international cohort study Psychological Medicine, 1-12 DOI:10.1017/S0033291712003066

- King, M., Marston, L., McManus, S., Brugha, T., Meltzer, H., & Bebbington, P. (2012). Religion, spirituality and mental health: results from a national study of English households The British Journal of Psychiatry, 202 (1), 68-73 DOI:10.1192/bjp.bp.112.112003



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Filosofia das religiões e o evolucionismo teísta (epic fail)


No "Que treta", o professor Ludwig Krippahl escreve o seguinte:
«(...) a maioria dos filósofos da religião se dedica ao problema irrelevante da existência de um deus abstracto que nada tem que ver com as religiões. Não é Jahve, Allah, Buda nem Krishna. É “uma causa sem causa” ou “uma necessidade metafísica” a quem ninguém acende uma vela. O Domingos Faria resumiu recentemente alguns argumentos que ilustram este problema. Defendem que a hipótese de um deus ser responsável por toda a criação é logicamente compatível com a teoria da evolução (1). Resumidamente, o ponto fundamental é que não há contradição lógica entre a tese de que os organismos evoluem pela acumulação de mutações e a tese de que um deus guia o processo desde que o faça às escondidas. Se bem que isto seja verdade, falha por completo o mais importante.
(...)
É logicamente consistente arranjar a televisão e depois deitá-la fora.»
- E seria provável que um deus que deseja tanto ser adorado/venerado/notado fizesse com que tudo pareça natural, sem a sua intervenção? Pelas características do deus da bíblia, o evolucionismo teísta é pouco provável - considerando o deus da Bíblia e não outro qualquer que se invente, claro.
«É logicamente consistente arranjar a televisão e depois deitá-la fora.» - Talvez. Mas é provável? É claro, que pelo conteúdo do texto do Ludwig, o "deus" compatível com a teoria da evolução é já um conceito distorcido relativamente ao deus da Bíblia (original).
O professor Krippahl continua, explicando porque é que a hipótese de deus da filosofia da religião falha: «Mas é importante apontar também que isso seria o que os ingleses chamam de missing the point e os portugueses, menos subtis, chamam de parvoíce. É este o problema que assola boa parte da filosofia da religião. 
Tal como a generalidade das explicações científicas, a teoria da evolução tem três características importantes. Primeiro, assenta em premissas independentes da teoria. A replicação do ADN, as mutações, a selecção natural, a hereditariedade e afins podem ser confirmadas sem assumir que a teoria está correcta. Em segundo lugar, a teoria da evolução explica o que é mais difícil de compreender recorrendo a elementos mais fáceis de compreender. Por exemplo, explica a evolução das baleias pela acumulação de pequenas mutações sob pressão selectiva, ao longo de muitas gerações. Finalmente, a teoria da evolução especifica em detalhe o que se pode observar na natureza se a teoria estiver correcta, o que permite extrapolar do que sabemos para prever algo de novo. As hipóteses de deuses sempre falharam nas duas primeiras características. O deus sempre foi assumido gratuitamente, sem evidências independentes que suportassem essa premissa, e explicar uma baleia invocando um deus não ajuda a perceber nada porque pretende explicar o difícil com algo impossível de compreender. O deus dos filósofos modernos é ainda pior porque falha até na terceira característica. As hipóteses religiosas de criação divina ainda diziam alguma coisa, se bem que fossem erradas. A hipótese deslavada da filosofia da religião nem sequer errada consegue ser.» - E tem razão. Sem evidências, sem valor explicativo, não temos uma hipótese digna de aceitação.
«O estudo filosófico da compatibilidade lógica desta hipótese com o resto da ciência é trivial porque a hipótese é concebida, à partida, para permitir tudo. Se esse deus pode fazer tudo, a hipótese dele existir é compatível com o que quer que se observe. Mas é precisamente por isso que a devemos rejeitar. Logo à partida, isto coloca-a a par com infinitas alternativas igualmente compatíveis com tudo, como os duendes invisíveis da carga do electrão e os gnomos transdimensionais da gravidade.» - Outra realidade desagradável para os teístas. 
«Mas, principalmente, porque conjugar essa hipótese com as teorias científicas estraga tudo o que estas têm de bom. Deixam de estar assentes apenas em premissas empiricamente fundamentadas. Deixam de poder explicar o que é difícil de entender com recurso a elementos mais compreensíveis. E a mera possibilidade de um deus manipular tudo impede-as de prever o que quer que seja.» E só o "deixam de estar assentes em premissas empiricamente fundamentadas" deita tudo a perder. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Ciência vs religião: Estudantes religiosos não compreendem a teoria da evolução

Um estudo recente demonstrou que a religião era um factor de previsão mais importante do que a educação não só da aceitação, como também da compreensão da teoria da evolução - as descobertas apoiam a ideia de que a religião enviesa os indivíduos relativamente ao assunto, sendo mais influente ainda que a educação. Não tem nada a ver com haver evidências contra ou não haver evidências a favor. Ou é ignorância ou é viés religioso. 
Do resumo:

"Results: We found that the degree of religiosity mattered significantly more than education when predicting students’ understanding of evolution. When we focused on acceptance of evolution only, students taught evolution or neither evolution nor creationism in high school had significantly higher acceptance than those taught both evolution and creationism or just creationism. Science majors always outscored non-science majors, and not religious students significantly outperformed religious students. Highly religious students were more likely to reject evolution even though they understood that the scientific community accepted the theory of evolution. Overall, students in two of three biology classes increased their acceptance of evolution, but only those students that seldom/never attended religious services improved. K-12 state science standard grades were significantly and negatively correlated with measures of state religiosity and significantly and positively correlated with measures of state educational attainment."


História da Psicologia e Charles Darwin

Hoje, em História da Psicologia, um dos assuntos abordados foi o começo do behaviourismo, da psicologia animal e da psicologia comparada como estudo científico, incluindo o que motivou os cientistas a debruçarem-se sobre o comportamento animal. Os animais eram vistos praticamente como robôs, sem mente, sem algo análogo às capacidades mentais humanas. A possibilidade de que isso não fosse verdade foi levada a sério por influência da perspectiva evolutiva de Darwin - de que os humanos não eram fundamentalmente diferentes dos animais (aliás, nós somos animais); não havia uma linhagem separada só de humanos, não ocupávamos nenhum lugar especial na criação. 
Agora, ao observarmos os criacionistas, verificamos que afirmações como esta vão surgindo: "não sei de nenhum facto [ ou "facto biológico"] que precisasse da teoria da evolução para ser descoberto" (podem visitar o "Darwinismo" para exemplo concretos). Uma das descobertas foi o reflexo condicionado como mecanismo de aprendizagem - em cães, por exemplo, e, se modo semelhante, em humanos. Aí está um facto que não saberíamos se não fosse a teoria da evolução, versão darwiniana. E, se por "facto biológico" se entender "relativo aos seres vivos", um facto biológico. 

                                         

Os criacionistas usam computadores, electricidade, vão ao psicólogo, ao médico, ao veterinário... usam o que advém da aplicação do conhecimento científico, mas negam o conhecimento científico quando lhes convém. Espertos!