terça-feira, 14 de outubro de 2014

As reacções (super) emocionais dos cristãos a Richard Dawkins

E que reacções!


Mandar uma pessoa àquela parte e insultá-la por ser abertamente ateia, dar palestras (sobretudo sobre ciência e ateísmo) é um exagero (mas que exagero!). Sentem-se assim tão ameaçados pelo que ele diz? Estão na eminência de uma crise de fé? E, relativamente a quem afirma que a ciência é arrogante, para que fique esclarecido (seja figura de estilo ou não), os cientistas (alguns) podem ser arrogantes, mas a ciência é apenas o método utilizado pelo cientista (quer no campo da química, da biologia, da física e até da psicologia - http://en.wikipedia.org/wiki/Psychology;http://en.wikipedia.org/wiki/Cognitive_psychology#Vs._cognitive_science; http://en.wikipedia.org/wiki/Cognitive_psychology#Vs._cognitive_science). 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

15 respostas aos disparates criacionistas

15 respostas aos disparates que os criacionistas propagam: http://www.scientificamerican.com/article/15-answers-to-creationist/

Como exemplo:

«2. Natural selection is based on circular reasoning: the fittest are those who survive, and those who survive are deemed fittest.
"Survival of the fittest" is a conversational way to describe natural selection, but a more technical description speaks of differential rates of survival and reproduction. That is, rather than labeling species as more or less fit, one can describe how many offspring they are likely to leave under given circumstances. Drop a fast-breeding pair of small-beaked finches and a slower-breeding pair of large-beaked finches onto an island full of food seeds. Within a few generations the fast breeders may control more of the food resources. Yet if large beaks more easily crush seeds, the advantage may tip to the slow breeders. In a pioneering study of finches on the Galápagos Islands, Peter R. Grant of Princeton University observed these kinds of population shifts in the wild [see his article "Natural Selection and Darwin's Finches"; Scientific American, October 1991].
The key is that adaptive fitness can be defined without reference to survival: large beaks are better adapted for crushing seeds, irrespective of whether that trait has survival value under the circumstances.»

Sim, esta "objecção" já é velha. E é um disparate, como tudo o que sai da boca (ou em alguns casos, da ponta dos dedos) dos criacionistas.  

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

E os criacionistas estrebucham

Evolução, Informação e os disparates do William Dembski (outra vez...)

Os criacionistas do design inteligente (tal como os seus primos do campo, os criacionistas da Terra jovem e da Terra velha) há muito que perderam a credibilidade perante a comunidade científica. Mas será que isso os impede de continuarem a gritar histericamente "design inteligente" onde quer que tenham oportunidade? Claro que não. Até nas universidades eles proclamam a sua ignorância (propositada?). O leitor (esclarecido) provavelmente pergunta-se? "O quê? Numa universidade? Qual?" Na Universidade de Chicago (onde até lecciona um cientista e autor bastante conceituado - Jerry A. Coyne autor de "Why Evolution is true" e "Speciation"). O William Dembski foi convidado por um antigo professor para dar uma palestra sobre algoritmos evolutivos e "conservação da informação". Sim, este é um caso de convite especial dum "amigo do amigo" (neste caso dum "professor do professor"). E o Dembski aceitou a oportunidade para fazer publicidade ao seu tipo de criacionismo de eleição. Mas o que não falta são comentários ("reciclados") de cientistas (os biólogos Joe Felsenstein e Jerry Coyne) que assistiram à palestra e conhecem o seu conteúdo (de trás para a frente, pois já é repetido) e que não acharam os argumentos convincentes (*). Resumindo:

- Dembski considera todas as formas possíveis de que o conjunto de aptidões de reprodução pode ser distribuído por um conjunto de genótipos. Quase todas estas parecem distribuições aleatórias.

- Dado que existe uma associação aleatória de genótipos e aptidões, Dembski está certo em afirmar que é muito difícil de fazer muitos progressos na evolução. A superfície de fitness é uma superfície de "ruído", que tem um grande número de picos "afiados" (picos de aptidão). A evolução vai progredir apenas até que sobe o pico mais próximo, e então vai parar. 

- Mas esse é um modelo muito mau para a biologia real, porque, nesse caso, uma mutação é tão má  como mudar todos os nucleótidos do genoma ao mesmo tempo.

- Além disso, nesse modelo, todas as partes do genoma interagem muito fortemente, muito mais do que em organismos reais. 

- Dembski e Marks reconhecem que, se a superfície de fitness é mais suave do que isso (e de facto é - mudar a cor do pêlo do urso pular não afecta a sua musculatura, forma das garras, etc.), é possível fazer progressos. 

- Eles, então, argumentam que a escolha de uma superfície de fitness bastante suave requer um designer. 

- Mas reconhecem implicitamente que a selecção natural pode criar adaptação. O argumento não requer projecto para ocorrer uma vez que a superfície de fitness está escolhida. É, portanto, um argumento para o evolucionismo teísta, e não para o design inteligente; e um argumento bem fraco, pois continua a não haver razões para aceitar que um deus foi responsável por isso, existindo possíveis explicações alternativas – talvez leis da química ou da física (como Felsenstein defende, que as leis da física implicam uma superfície muito mais suave do que um "mapa" aleatório - se a expressão do gene é separada no tempo e no espaço, os genes são muito menos propensos a interagir fortemente, e a superfície será muito mais suave do que a superfície "aleatória")
Seja como for que se defina informação, quer seja "criada" durante o processo evolutivo, quer antes, isto mantém-se. Esse deus é no mínimo desnecessário, ao contrário do que afirmam os criacionistas.

Criacionistas, vocês perderam há muito. Chega.   
   

           

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ateísmo é doença mental? Não...

Claro que não. Para mostrar como seria estúpido responder afirmativamente, dizer que o ateísmo é uma doença mental é o mesmo que dizer que ter pêlos nas orelhas (uma forma de hirsutismo) é uma doença, que os homens que têm pêlos nas orelhas são doentes porque saem da norma. O mesmo para os carecas. Não estão doentes, mas fazem parte da diversidade humana, uma vez que isso não os prejudica (e até há mulheres que gostam de carecas) nem a mais ninguém. Mas há quem tente justificar de um modo semelhante que o ateísmo é uma doença mental (1) (e o Mats apoia essa ideia):
«Isto prende-se com o facto da ciência mostrar que a mente humana está construída para a fé visto que fomos criados para acreditar. Esse é um dos motivos cruciais que faz com que os crentes sejam mais felizes; as pessoas religiosas têm todas as suas capacidades mentais intactas, e estão a funcionar de forma plena como humanos. Logo, ser um ateu – tendo em falta a vital capacidade da fé – deve ser vista como uma aflição, e uma deficiência trágica: algo análogo à cegueira.» - Ainda que isso assim fosse, por uma maioria funcionar dessa maneira, não quer dizer que tudo o que saia disso seja "doença", nem sequer que as crenças religiosas (incluindo a existência de deus) sejam verdadeiras. É por não entenderem o conceito de diversidade que os criacionistas não entendem a evolução e como tudo (incluindo a possível tendência para crenças irracionais) pode ter evoluído com base num processo semi-aleatório.
Para terminar, se ser pro-ciência e não acreditar em disparates é ser "doente mental", eu prefiro ser doente, obrigada. 

Actualização:

O Mats insiste em defender o indefensável. Eu bem lhe explico que dizer que ateísmo é doença é a mesma coisa que dizer que ser careca (ou já agora, loiro) é ser doente. Os ateus de um modo geral não sofrem como consequência directa ou indirecta do ateísmo (pelo menos, não mais do que os religiosos sofrem como consequência da sua religiosidade). Se vamos definir doença de tal maneira que inclua tudo o que é variabilidade, então a definição torna-se inútil.

Pela resposta que obtive, o Mats não percebeu a minha analogia - era sobre o impacto que causavam e não se um era negar a existência e deus e o outro era não ter cabelo! Mas há mais: «Aparentemente, sofrem, visto que têm menos filhos, saúde inferior, mais problemas psicológicos, são menos altruístas, etc, etc.» - São menos altruístas? E sofrem por serem menos altruístas? Mais problemas psicológicos? E é o ateísmo que causa os problemas psicológicos? Pelo que li sobre o assunto, não me parece, nem me parece que, considerando os estudos e observações clínicas que contradizem isso, os ateus tenham mais tendência a sofrer de problemas mentais (http://allthatmattersmaddy32b.blogspot.pt/2014/10/religiao-vs-saude-mental.html). Além disso, estudos que encontram correlações nem sempre encontram causalidade. Mais ainda, desde quando é que ter menos filhos indica menos saúde ou faz alguém sofrer? Tanta treta em tão poucas linhas... 
A causa da doença ou de certas atitudes pode não ser o ateísmo em si (falta de crença em quaisquer divindades, que é como o termo é empregue pela maioria dos ateus, que eu saiba - e o dicionário deve ser descritivo e não prescritivo), mas talvez a falta do espírito de comunidade envolvente nos meios mais religiosos (mas que está longe de ser universal nesses mesmos meios) - não terá a ver com a falta de crença em si. De qualquer maneira, certas patologias podem ser agravadas/despoletadas pelo contacto com a religião ou pela adopção de crenças religiosas. Quanto à questão do altruísmo, isso não significa doença mental ou sofrimento. E o altruísmo nem sequer é requisito para o sucesso (antes pelo contrário). Ainda que tivesse bases para afirmar que o ateísmo contribuiu para o desenvolvimento/agrava a patologia, seria apenas um factor de risco (entre vários outros, e tal como a religião é para certas patologias) e não uma doença em si. O ateísmo em si, indica variedade de forma de pensar e de crenças - neste caso, é falta de crença (que poderá ter um fundo de variedade biológica). Nada mais.   


Ref.:

1. “Are atheists mentally ill?”, Sean Thomas (http://blogs.telegraph.co.uk/news/seanthomas/100231060/are-atheists-mentally-ill/) (Via "Darwinismo") 



     

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O Ateísmo e a Terra Plana

O histerismo dos criacionistas

Mais propriamente do criacionista Francisco Tourinho. No blog dele, escreve o seguinte: «Cientistas e religiosos medievais jamais acreditaram que a Terra era plana, isso foi criado por acadêmicos ateus para fazer marketing com suas ideias, esses sim foram os verdadeiros opositores da verdade na Ciência. Calúnias contra a oposição desde o seu nascimento!» Verdade na ciência… Ciência é ciência, e o conhecimento que se obtém através do método científico é o mais próximo da verdade. Agora, comparemos a atitude anti-científica dos criacionistas que querem à viva força que tudo encaixe no seu livrinho de contos com a atitude maioritariamente pro-ciência dos ateus (ex.: aceitação da teoria da evolução e das evidências a favor da mesma). Quais são os mais anti-ciência? Os criacionistas histéricos agarrados ao livrinho de histórias ou os ateus esclarecidos? Sim, porque existem muitos ateus esclarecidos, mas criacionistas duvido muito. Quanto ao resto, seja como for, acreditar no criacionismo hoje em dia é tão estúpido como acreditar numa Terra plana. E pelos disparates em que os cristãos acreditam, não me admiraria nada se acreditassem também nesse.   

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Religião vs. saúde mental

Certos psiquiatras encontraram uma relação entre neurose e histeria e religião, que foi confirmada em algumas amostras num contexto de investigação (1). Estudos (*) apontam para que certas crenças e práticas religiosas de alguns pacientes psiquiátricos tenham origem numa predisposição patológica (ex.: pacientes que acreditam estarem possuídos por demónios e que deus fala com eles, etc.) e para que o contacto com a religião e experiências religiosas possam despoletar esses episódios psicóticos, mas outros apontam para que a religião possa servir para os aliviar do stress da doença e mesmo do stress de situações menos agradáveis do dia-a-dia (1,2) (ex.: morte de parentes). É claro que eu poderia propor que, por exemplo para lidar com a morte de um familiar, pode-se simplesmente manter a sua memória viva, até mesmo através de gerações futuras (em vez de uma “alma imortal”, por exemplo). As crenças religiosas não são necessárias para lidar com esse tipo de situações. Há alternativas, provavelmente melhores, uma vez que, segundo o psiquiatra canadiano Wendall Watters, «Tem sido demonstrado que a doutrina cristã e liturgia desencorajam o desenvolvimento de estratégias maduras de “coping” e das aptidões relativas às relações interpessoais que permitem lidar de uma forma adaptativa com a ansiedade causada pelo stress.» (2)
No ramo da psiquiatria há poucos profissionais que defendam opções de tratamento relacionadas com a religião. Essas pérolas raras defendem que se deve até rezar com os pacientes e apelam à intervenção de clérigos quando o psiquiatra utilizar as crenças religiosas do paciente no tratamento – mas o que se está à espera quando por baixo das afiliações do autor do artigo se lê algo como isto: “Center for Spirituality, Theology and Health, Duke University Medical Center, Durham, North Carolina, USA.” É claro que para quem escreveu isto, o maior interesse não é a ciência nem sequer o bem-estar dos pacientes ou as boas práticas num contexto clínico. É propaganda religiosa pura e simples – marketing religioso (1). Não sou contra respeitar as crenças ou antecedentes religiosos do paciente (o que se quer é evitar o conflito entre o psiquiatra ou psicólogo e o paciente e não fomentá-lo, de modo a que se evite sobrecarregar o doente com stress e não se desvie o profissional dos seus objectivos), nem a favor de não as ter em conta, para o bem e para o mal – e nenhum profissional de saúde (mental ou não) que se preze deve ser contra isso (pelo menos metade numa pesquisa não são (2)). Mas uma coisa é respeitar e ter em conta, outra coisa é incluir no tratamento a promoção/apoio de práticas e crenças religiosas dos pacientes como estratégia de “coping” – o psiquiatra deve manter uma posição neutra e promover estratégias alternativas sem desrespeitar as crenças do paciente, podendo ou não contradizer essas crenças conforme apropriado num contexto terapêutico ou não, mesmo que possa ajudar a lidar com a ansiedade em certos casos, até porque é sabido que podem despoletar episódios psicóticos e não se pode ter a certeza na maioria dos casos de que o paciente não tem tendência para esses episódios, podem ter uma base patológica e o psiquiatra não deve ajudar a perpetuar ilusões. Não se devem utilizar essas práticas (a não ser talvez em último dos últimos casos), pois podem ser uma “falsa ajuda” do que uma ajuda (ver citação destacada) e não há estudos que apoiem a ideia de que o “tratamento religioso” é melhor do que o tratamento “não religioso”. Não sou psicóloga nem psiquiatra (tenho apenas 4 créditos de psicologia em todo o curso de ACSP e frequentei algumas aulas de psicologia do desenvolvimento extra), mas não é preciso muito mais que cultura geral básica, consulta das fontes certas e inteligência para ver as possíveis implicações nefastas na saúde do individuo decorrentes dessa prática, além de que seria deseducar a população sem qualquer benefício adicional garantido, uma vez que as crenças religiosas não são confirmadas por qualquer tipo de evidências (pelo contrário) e são tidas como superstição pela maioria dos cientistas (e até psiquiatras e psicólogos).
Relativamente ao assunto da relação entre depressão e religião, há poucos estudos e os resultados pendem para ambos os lados (2).
Uma ocorrência comum é a discriminação de doentes mentais por parte das comunidades religiosas – e uma das causas pode ser a montanha de noções erradas que a própria religião leva a que se instale nessas populações. Outra é o facto das pessoas darem concelhos contrários aos dos profissionais com base na religião e escolherem erradamente não se tratarem com base em crenças religiosas (3). 
Por último mas não menos importante, mesmo que o balanço do "tratamento religioso" e da religião em si fosse positivo em termos de saúde mental, isso não faz das crenças religiosas dos pacientes factos nem teorias cientificamente aceitáveis.   

Notas:
*Exemplos:
Siddle, Ronald; Haddock, Gillian, Tarrier, Nicholas, Faragher, E. Brian (1 March 2002). "Religious delusions in patients admitted to hospital with schizophrenia". Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology 37 (3): 130–138. doi:10.1007/s001270200005.PMID 11990010.
 Mohr, Sylvia; Borras, Laurence, Betrisey, Carine, Pierre-Yves, Brandt, Gilliéron, Christiane, Huguelet, Philippe (1 June 2010). "Delusions with Religious Content in Patients with Psychosis: How They Interact with Spiritual Coping". Psychiatry: Interpersonal and Biological Processes 73 (2): 158–172. doi:10.1521/psyc.2010.73.2.158.
Suhail, Kausar; Ghauri, Shabnam (1 April 2010). "Phenomenology of delusions and hallucinations in schizophrenia by religious convictions". Mental Health, Religion & Culture 13 (3): 245–259. doi:10.1080/13674670903313722.

Referências:

1. “Religion and mental health: what should psychiatrists do?”

Harold G. Koenig, Professor of Psychiatry and behavioral Sciences, Associate Professor of Medicine, Psychiatric Bulletin (2008)32: 201-203doi:10.1192/pb.bp.108.019430 (http://pb.rcpsych.org/content/32/6/201.full

2. Religion, Spirituality, and Mental Health, January 10, 2010, Simon Dein, FRCPsych, PhD – Psychiatric Times (http://www.psychiatrictimes.com/articles/religion-spirituality-and-mental-health)


3. «Module 7: Cultural Perspectives on Mental Health» - Unite for Sight (http://www.uniteforsight.org/mental-health/module7)   

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Dawkins e os Criacionistas

No “Darwinismo, o Mats escreveu uma data de baboseiras acerca de certas observações do Dawkins, citando um artigo em que o autor pretende desconstruir o que ele diz… distorcendo tudo a seu belo prazer, e escrevendo disparates:

1. “Se tu tivesses nascido na Índia….”
«[Dawkins] tenta apresentar este argumento contra a crença religiosa dizendo: “Se tivesses nascido na Índia tu provavelmente estarias a adorar Vishnu”. E depois? A forma como as pessoas passaram a ter uma crença não nos diz nada sobre a veracidade dessa mesma crença. Com este argumento, Dawkins dá um exemplo clássico da Falácia Genética; ele tenta demonstrar a origem duma crença, e com isso “prova” que essa crença é falsa.» - Isto parece ter mais a ver com “inspiração divina/ revelação” vs. “cultura e geografia” do que “existência” vs “não existência”. Não é falácia genética. Só nos diz que a crença das pessoas (algumas até dizem mesmo ser inspiradas por Deus) é devida à cultura e geografia, que fazem as pessoas propensas a acreditar mais numas coisas do que noutras e interpretar experiências a essa luz. Outra vertente para que a afirmação do Dawkins pode chamar a atenção é que uma possível alternativa à existência de deuses é que estes foram apenas invenção do ser humano, e não existem na realidade – não estou a argumentar que porque foi inventado e assim as gerações seguintes passaram a acreditar, então não existe, mas apenas a apontar uma hipótese – a mais provável.
2. A sua crítica ao Argumento Ontológico
«Dawkins afirmou que certa vez ele esteve presente numa convenção cheia de teólogos e filósofos, e, à frente deles, tentou refutar o argumento ontológico falando dum maximamente grande porco voador. Tal como o Dr. William Lane Craig ressalvou, isto é embaraçoso. Pergunto-me que imagem Dawkins passou de si próprio nesta conferência de teólogos e filósofos. Dawkins escreve: Eles recorreram à lógica modal para refutar o que eu estava a dizer. Para mim, isto é o mesmo que dizer, “Eles refutaram o que eu estava a dizer” visto que o argumento ontológico é um exemplo de lógica modal. Ficamos logo com a ideia de que Dawkins não faz ideia nenhuma do que se está a falar.» Isso não é bem assim. No “God Delusion”, Dawkins escreve que apresentou a um grupo de teólogos e filósofos uma adaptação do argumento ontológico para provar que os porcos podem voar. Então, eles foram obrigados a recorrer à lógica modal para o refutarem. O que Dawkins fez foi uma paródia ao argumento ontológico (à lógica modal em si) – não vejo onde está o problema. Nada disto quer dizer que a filosofia em geral não serve para nada.
3. A sua crítica ao Argumento Cosmológico de Kalam (You left out Step 4: "Therefore Jesus died for our sins and regularly turns into a wafer”, quando lhe foi pedido feedback sobre o assunto*)
«Dawkins respondeu a este argumento afirmando que, mesmo que se aceite que o universo tem uma Causa, isso nada faz para mostrar que o Deus da Bíblia existe. Esta resposta de Dawkins é irrelevante porque não era esse o propósito do argumento; o propósito do argumento era o de mostrar que a Causa do universo era Eterna, Imaterial, Ilimitada e Sobrenatural. O argumento nunca tentou provar que o Deus da Bíblia era o Criador, logo, Dawkins não entendeu nada do argumento.» - Provavelmente o Dawkins só queria apontar que é pouco relevante para os cristãos (talvez não tanto para os deístas). O que o Dawkins diz é relevante, pois este argumento é normalmente apresentado por teístas, em geral cristãos. Se não pretende demonstrar que é o deus deles, ou sequer um deus teísta, escusam de o usar, pois de nada lhes serve – não são deístas, e a causa nem precisa de ser “inteligente”, “pensante”, com emoções e desejos humanos, como normalmente se concebe “deus”. E “sobrenatural”, depende da definição de sobrenatural. E “imaterial”? Não é o mesmo que divino. Nem sequer temos garantido que “tudo” (incluindo o universo) o que “começa” a existir tem uma causa. O máximo que podemos inferir é relativamente ao que está dentro do universo, nada relativamente ao universo em si – não sabemos se o universo, mesmo se considerarmos um “começo” tem que ter tido uma causa ou teve uma causa. E como escreveu um comentador (assina “Sodré”): “Eu julgo que sempre existiu Algo físico obediente a leis ainda desconhecidas, outros julgam que sempre existiu Algo transcendente… Mas sempre terá existido Algo…” Possivelmente. E não necessariamente um deus. O impacto deste argumento num debate sobre a existência de qualquer deus é pouco mais que zero. Pouco ajuda a causa dos cristãos desesperados. Next.  

4. As suas opiniões sobre a complexidade.
«Dawkins pensa que Deus é Uma Entidade enormemente Complexa, e como tal, não seria um avanço no conhecimento. Segundo Dawkins, não podemos invocar Deus como explicação porque Deus é ainda mais Complexo que aquilo cuja origem Ele é a explicação. Isto faz parte do argumento central do livro “The God Delusion”. (…) Uma explicação pode ser mais complexa que uma explicação rival mas ser aceite porque tem um poder e um alcance explicativo maior. [O deus da Bíblia não é aceite porque não pode explicar coerentemente o que observamos, não há evidências a favor da sua existência, como o próprio Dawkins já referiu várias vezes, etc.] Para além disso, se alguém se preocupa com a simplicidade, então Deis [sic] ajusta-Se a esse critério; Ele é Uma Mente sem um corpo; as Suas ideias podem ser muito complexas mas a Mente em si não é.» - Boa sorte em demonstrar que isso é ao menos possível (e serve também para quem diz que as únicas coisas que encaixam na descrição que se deduz da tal “causa” são mentes inteligentes e coisas abstractas – eu diria, as únicas coisas que conhecemos, e quanto à mente inteligente, nada garantido) – nos comentários, o Mats respondeu: “É auto-evidente pela existência da matéria física”, e “e pela impossibilidade de forças naturais geram [Sic] matéria física. Isto leva-nos a inferir que deve existir pelo menos UMA Mente sem corpo físico.” Forças naturais… Ou seja, causas que se conheçam. E eu pergunto-me, porquê uma “mente”? Ao responder-lhe foquei-me em demonstrar que flutuações quânticas criavam matéria e apresentar hipóteses interessantes sobre a origem do universo que envolvem flutuações quânticas**. Mas nada garante ao Mats que, por não sabermos qual foi a “causa”, era necessária a tal “mente sem corpo”. Além disso… o que se passou com o “Caps” do Mats? Ele já não se limita a escrever “Deus” com letra maiúscula, mas tudo o que se relaciona com deus. Tem muito medo de ir parar ao inferno, mas muito pouca vergonha.
5. Que criou o Criador? [Sic]
«Dawkins pensa que não se pode usar Deus como explicação porque com isso, outro problema é gerado – nomeadamente, quem criou Deus? Esta pergunta tem sido defendida por muitos ateus, chegando até a chamá-la de “a pergunta que nenhum teísta pode responder.” (…) Dawkins mantém uma atitude auto-congratulatória, (…) dizendo às pessoas que “este é um argumento sério, que nenhum teólogo foi até hoje capaz de dar uma resposta convincente.” O problema (…) é que (…) De modo a que se possa dizer que A causou B, não é preciso demonstrar a origem de A. » - “De modo a que se possa dizer que A causou B, não é preciso demonstrar a origem de A.”? Certo. Mas os teístas, que eu saiba continuam sem resposta à pergunta. O ateu tem o problema de explicar a origem do universo, que agora já não é um problema assim tão grande, com os avanços da física, enquanto que o teísta tem que explicar a origem do seu Deus – e esse, ao que parece é um problema ainda maior. Essa pergunta do Dawkins e de outros é pertinente, na medida que exige aos teístas a resolução do problema deles, tal como muitos exigem a resolução do problema do universo.
Resumindo: nos pontos 1, 2 e 3 o autor do artigo (muito provavelmente) distorceu os pontos de vista do Dawkins, e no ponto 5, a pergunta do Dawkins é pertinente e os teístas não conseguem responder. No ponto 4, bem, como eu disse, boa sorte em demonstrar que é possível haver mente sem corpo.
Com o único objectivo de caluniar Dawkins e os ateus em geral, o autor escreve: «A injustificada devoção que a maioria dos militantes ateus têm por Dawkins diz muito do seu baixo grau de exigências e da sua credulidade infantil.» - A injustificada devoção que a maioria dos fanáticos cristãos têm pela Bíblia diz muito do seu baixo grau de exigências e da sua credulidade infantil.
«Apesar da grande estima que o militante ateu comum tem por ele, os académicos tendem a olhar para ele como uma figura humorística, agitador de punho contra fadas madrinhas.» E… que percentagem desses “académicos” de que fala o autor são cristãos enviesados? Provavelmente, muitos.
A cereja no topo do bolo é chamarem-lhe “sociopata” – criacionistas e não só***. Como na maioria dos casos, sendo leigos na área da psicologia e dado o contexto, é provável que estejam a usar o termo como se fosse equivalente a “psicopata”. Se não estão, não podiam estar mais longe da verdade. Se estão, também não estão propriamente perto. Nem por sombras. Há anos que leio o que o Dawkins escreve e assisto às palestras e entrevistas com ele. Ele é um pouco manipulador, assumindo que ele por vezes usa argumentos que podem induzir o adversário a interpretar de maneira errada e a não perceber o ponto de vista à primeira (no caso dos criacionistas, provavelmente nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira) e que não é apenas fruto das mentes retorcidas dos criacionistas. É também manipulador pois goza com o adversário em público. Mas isso é só uma característica numa lista de 20. Parece um tanto impulsivo naquilo que escreve no Twitter, por exemplo, e é um tanto frio no que afirma. Mas isso são apenas três características numa lista enorme, mais uma vez, se considerarmos “falta de empatia” como diferente de 0, que significa que não se aplica de todo à pessoa em causa. Há ainda que admitir que ele tem charme, lábia e pode ser bastante agradável. Merece um 2, é verdade. Sofre de tédio? Pelo que li sobre a biografia dele, provavelmente. Isto dá um total de 7 a 10 pontos na PCL-R. Uma pessoa dita saudável pode ter até 10 nessa lista, e uma pessoa com apenas ligeiras inclinações psicopáticas tem até 19. Tendo isso em consideração, é muito provável que o Dawkins não seja nenhum psicopata, apenas um cientista reformado e um ateu mais ou menos sensato.
Notas:

* Ver: “The Kalam Cosmological Argument” – Comments (Richard Dawkins Foundation for Reason and science website - http://old.richarddawkins.net/discussions/507717-the-kalam-cosmological-argument/comments?page=1)

** Fontes sugeridas: http://www.colorado.edu/philosophy/vstenger/Cosmo/FineTune.pdf (hipótese de Linde, que propõe uma “espuma” de fundo do espaço-tempo - onde partículas subatómicas vão aparecendo e desaparecendo - criada a partir de partículas virtuais); http://debunkingwlc.wordpress.com/2010/08/11/alexander-vilenkins-model-of-cosmic-origins/ (ver também: http://en.wikipedia.org/wiki/Inflation_(cosmology)) e
http://debunkingwlc.wordpress.com/2010/07/31/are-vacuum-fluctuation-models-dead/ (outra hipótese interessante sobre a origem do universo, que também envolve flutuações quânticas.)