Mandar uma pessoa àquela parte e insultá-la por ser abertamente ateia, dar palestras (sobretudo sobre ciência e ateísmo) é um exagero (mas que exagero!). Sentem-se assim tão ameaçados pelo que ele diz? Estão na eminência de uma crise de fé? E, relativamente a quem afirma que a ciência é arrogante, para que fique esclarecido (seja figura de estilo ou não), os cientistas (alguns) podem ser arrogantes, mas a ciência é apenas o método utilizado pelo cientista (quer no campo da química, da biologia, da física e até da psicologia - http://en.wikipedia.org/wiki/Psychology;http://en.wikipedia.org/wiki/Cognitive_psychology#Vs._cognitive_science; http://en.wikipedia.org/wiki/Cognitive_psychology#Vs._cognitive_science).
Este blog é a continuação do meu velho blog com o mesmo título e vai tratar de assuntos diferentes, como psicologia e neurociências, mas também de evolução como anteriormente, um pouco de filosofia de vez em quando, ateísmo e religião - e isso inclui demolir argumentos criacionistas (e escarnecer deles).
terça-feira, 14 de outubro de 2014
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
15 respostas aos disparates criacionistas
15 respostas aos disparates que os criacionistas propagam: http://www.scientificamerican.com/article/15-answers-to-creationist/
Como exemplo:
Como exemplo:
«2. Natural selection is based on circular reasoning: the fittest are those who survive, and those who survive are deemed fittest.
"Survival of the fittest" is a conversational way to describe natural selection, but a more technical description speaks of differential rates of survival and reproduction. That is, rather than labeling species as more or less fit, one can describe how many offspring they are likely to leave under given circumstances. Drop a fast-breeding pair of small-beaked finches and a slower-breeding pair of large-beaked finches onto an island full of food seeds. Within a few generations the fast breeders may control more of the food resources. Yet if large beaks more easily crush seeds, the advantage may tip to the slow breeders. In a pioneering study of finches on the Galápagos Islands, Peter R. Grant of Princeton University observed these kinds of population shifts in the wild [see his article "Natural Selection and Darwin's Finches"; Scientific American, October 1991].
"Survival of the fittest" is a conversational way to describe natural selection, but a more technical description speaks of differential rates of survival and reproduction. That is, rather than labeling species as more or less fit, one can describe how many offspring they are likely to leave under given circumstances. Drop a fast-breeding pair of small-beaked finches and a slower-breeding pair of large-beaked finches onto an island full of food seeds. Within a few generations the fast breeders may control more of the food resources. Yet if large beaks more easily crush seeds, the advantage may tip to the slow breeders. In a pioneering study of finches on the Galápagos Islands, Peter R. Grant of Princeton University observed these kinds of population shifts in the wild [see his article "Natural Selection and Darwin's Finches"; Scientific American, October 1991].
The key is that adaptive fitness can be defined without reference to survival: large beaks are better adapted for crushing seeds, irrespective of whether that trait has survival value under the circumstances.»
Sim, esta "objecção" já é velha. E é um disparate, como tudo o que sai da boca (ou em alguns casos, da ponta dos dedos) dos criacionistas.
Sim, esta "objecção" já é velha. E é um disparate, como tudo o que sai da boca (ou em alguns casos, da ponta dos dedos) dos criacionistas.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
E os criacionistas estrebucham
Evolução, Informação e os disparates do William Dembski (outra vez...)
Os criacionistas do design inteligente (tal como os seus primos do campo, os criacionistas da Terra jovem e da Terra velha) há muito que perderam a credibilidade perante a comunidade científica. Mas será que isso os impede de continuarem a gritar histericamente "design inteligente" onde quer que tenham oportunidade? Claro que não. Até nas universidades eles proclamam a sua ignorância (propositada?). O leitor (esclarecido) provavelmente pergunta-se? "O quê? Numa universidade? Qual?" Na Universidade de Chicago (onde até lecciona um cientista e autor bastante conceituado - Jerry A. Coyne autor de "Why Evolution is true" e "Speciation"). O William Dembski foi convidado por um antigo professor para dar uma palestra sobre algoritmos evolutivos e "conservação da informação". Sim, este é um caso de convite especial dum "amigo do amigo" (neste caso dum "professor do professor"). E o Dembski aceitou a oportunidade para fazer publicidade ao seu tipo de criacionismo de eleição. Mas o que não falta são comentários ("reciclados") de cientistas (os biólogos Joe Felsenstein e Jerry Coyne) que assistiram à palestra e conhecem o seu conteúdo (de trás para a frente, pois já é repetido) e que não acharam os argumentos convincentes (*). Resumindo:
- Dembski considera todas as formas possíveis de que o conjunto de aptidões de reprodução pode ser distribuído por um conjunto de genótipos. Quase todas estas parecem distribuições aleatórias.
- Dado que existe uma associação aleatória de genótipos e aptidões, Dembski está certo em afirmar que é muito difícil de fazer muitos progressos na evolução. A superfície de fitness é uma superfície de "ruído", que tem um grande número de picos "afiados" (picos de aptidão). A evolução vai progredir apenas até que sobe o pico mais próximo, e então vai parar.
- Mas esse é um modelo muito mau para a biologia real, porque, nesse caso, uma mutação é tão má como mudar todos os nucleótidos do genoma ao mesmo tempo.
- Além disso, nesse modelo, todas as partes do genoma interagem muito fortemente, muito mais do que em organismos reais.
- Dembski e Marks reconhecem que, se a superfície de fitness é mais suave do que isso (e de facto é - mudar a cor do pêlo do urso pular não afecta a sua musculatura, forma das garras, etc.), é possível fazer progressos.
- Eles, então, argumentam que a escolha de uma superfície de fitness bastante suave requer um designer.
- Mas reconhecem
implicitamente que a selecção natural pode criar adaptação. O argumento não
requer projecto para ocorrer uma vez que a superfície de fitness está escolhida. É,
portanto, um argumento para o evolucionismo teísta, e não para o design
inteligente; e um argumento bem fraco, pois continua a não haver razões para
aceitar que um deus foi responsável por isso, existindo possíveis explicações
alternativas – talvez leis da química ou da física (como Felsenstein defende, que
as leis da física implicam uma superfície muito mais suave do que um "mapa"
aleatório - se a expressão do gene é separada no tempo e no espaço, os genes
são muito menos propensos a interagir fortemente, e a superfície será muito mais
suave do que a superfície "aleatória")
Seja como for que se defina informação, quer seja
"criada" durante o processo evolutivo, quer antes, isto mantém-se. Esse deus é no mínimo
desnecessário, ao contrário do que afirmam os criacionistas.
Criacionistas, vocês perderam há muito. Chega.
Criacionistas, vocês perderam há muito. Chega.
* Nota: Ver: http://pandasthumb.org/archives/2014/10/dembskis-argume.html#more e http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2014/10/04/joe-felsenstein-analyzes-a-talk-by-william-dembski/
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Ateísmo é doença mental? Não...
Claro que não. Para mostrar como seria estúpido responder afirmativamente, dizer que o ateísmo é uma doença mental é o mesmo que dizer que ter pêlos nas orelhas (uma forma de hirsutismo) é uma doença, que os homens que têm pêlos nas orelhas são doentes porque saem da norma. O mesmo para os carecas. Não estão doentes, mas fazem parte da diversidade humana, uma vez que isso não os prejudica (e até há mulheres que gostam de carecas) nem a mais ninguém. Mas há quem tente justificar de um modo semelhante que o ateísmo é uma doença mental (1) (e o Mats apoia essa ideia):
«Isto prende-se com o facto da ciência mostrar que a mente humana está construída para a fé visto que fomos criados para acreditar. Esse é um dos motivos cruciais que faz com que os crentes sejam mais felizes; as pessoas religiosas têm todas as suas capacidades mentais intactas, e estão a funcionar de forma plena como humanos. Logo, ser um ateu – tendo em falta a vital capacidade da fé – deve ser vista como uma aflição, e uma deficiência trágica: algo análogo à cegueira.» - Ainda que isso assim fosse, por uma maioria funcionar dessa maneira, não quer dizer que tudo o que saia disso seja "doença", nem sequer que as crenças religiosas (incluindo a existência de deus) sejam verdadeiras. É por não entenderem o conceito de diversidade que os criacionistas não entendem a evolução e como tudo (incluindo a possível tendência para crenças irracionais) pode ter evoluído com base num processo semi-aleatório.
«Isto prende-se com o facto da ciência mostrar que a mente humana está construída para a fé visto que fomos criados para acreditar. Esse é um dos motivos cruciais que faz com que os crentes sejam mais felizes; as pessoas religiosas têm todas as suas capacidades mentais intactas, e estão a funcionar de forma plena como humanos. Logo, ser um ateu – tendo em falta a vital capacidade da fé – deve ser vista como uma aflição, e uma deficiência trágica: algo análogo à cegueira.» - Ainda que isso assim fosse, por uma maioria funcionar dessa maneira, não quer dizer que tudo o que saia disso seja "doença", nem sequer que as crenças religiosas (incluindo a existência de deus) sejam verdadeiras. É por não entenderem o conceito de diversidade que os criacionistas não entendem a evolução e como tudo (incluindo a possível tendência para crenças irracionais) pode ter evoluído com base num processo semi-aleatório.
Para terminar, se ser pro-ciência e não acreditar em disparates é ser "doente mental", eu prefiro ser doente, obrigada.
Actualização:
O Mats insiste em defender o indefensável. Eu bem lhe explico que dizer que ateísmo é doença é a mesma coisa que dizer que ser careca (ou já agora, loiro) é ser doente. Os ateus de um modo geral não sofrem como consequência directa ou indirecta do ateísmo (pelo menos, não mais do que os religiosos sofrem como consequência da sua religiosidade). Se vamos definir doença de tal maneira que inclua tudo o que é variabilidade, então a definição torna-se inútil.
Pela resposta que obtive, o Mats não percebeu a minha analogia - era sobre o impacto que causavam e não se um era negar a existência e deus e o outro era não ter cabelo! Mas há mais: «Aparentemente, sofrem, visto que têm menos filhos, saúde inferior, mais problemas psicológicos, são menos altruístas, etc, etc.» - São menos altruístas? E sofrem por serem menos altruístas? Mais problemas psicológicos? E é o ateísmo que causa os problemas psicológicos? Pelo que li sobre o assunto, não me parece, nem me parece que, considerando os estudos e observações clínicas que contradizem isso, os ateus tenham mais tendência a sofrer de problemas mentais (http://allthatmattersmaddy32b.blogspot.pt/2014/10/religiao-vs-saude-mental.html). Além disso, estudos que encontram correlações nem sempre encontram causalidade. Mais ainda, desde quando é que ter menos filhos indica menos saúde ou faz alguém sofrer? Tanta treta em tão poucas linhas...
A causa da doença ou de certas atitudes pode não ser o ateísmo em si (falta de crença em quaisquer divindades, que é como o termo é empregue pela maioria dos ateus, que eu saiba - e o dicionário deve ser descritivo e não prescritivo), mas talvez a falta do espírito de comunidade envolvente nos meios mais religiosos (mas que está longe de ser universal nesses mesmos meios) - não terá a ver com a falta de crença em si. De qualquer maneira, certas patologias podem ser agravadas/despoletadas pelo contacto com a religião ou pela adopção de crenças religiosas. Quanto à questão do altruísmo, isso não significa doença mental ou sofrimento. E o altruísmo nem sequer é requisito para o sucesso (antes pelo contrário). Ainda que tivesse bases para afirmar que o ateísmo contribuiu para o desenvolvimento/agrava a patologia, seria apenas um factor de risco (entre vários outros, e tal como a religião é para certas patologias) e não uma doença em si. O ateísmo em si, indica variedade de forma de pensar e de crenças - neste caso, é falta de crença (que poderá ter um fundo de variedade biológica). Nada mais.
Actualização:
O Mats insiste em defender o indefensável. Eu bem lhe explico que dizer que ateísmo é doença é a mesma coisa que dizer que ser careca (ou já agora, loiro) é ser doente. Os ateus de um modo geral não sofrem como consequência directa ou indirecta do ateísmo (pelo menos, não mais do que os religiosos sofrem como consequência da sua religiosidade). Se vamos definir doença de tal maneira que inclua tudo o que é variabilidade, então a definição torna-se inútil.
Pela resposta que obtive, o Mats não percebeu a minha analogia - era sobre o impacto que causavam e não se um era negar a existência e deus e o outro era não ter cabelo! Mas há mais: «Aparentemente, sofrem, visto que têm menos filhos, saúde inferior, mais problemas psicológicos, são menos altruístas, etc, etc.» - São menos altruístas? E sofrem por serem menos altruístas? Mais problemas psicológicos? E é o ateísmo que causa os problemas psicológicos? Pelo que li sobre o assunto, não me parece, nem me parece que, considerando os estudos e observações clínicas que contradizem isso, os ateus tenham mais tendência a sofrer de problemas mentais (http://allthatmattersmaddy32b.blogspot.pt/2014/10/religiao-vs-saude-mental.html). Além disso, estudos que encontram correlações nem sempre encontram causalidade. Mais ainda, desde quando é que ter menos filhos indica menos saúde ou faz alguém sofrer? Tanta treta em tão poucas linhas...
A causa da doença ou de certas atitudes pode não ser o ateísmo em si (falta de crença em quaisquer divindades, que é como o termo é empregue pela maioria dos ateus, que eu saiba - e o dicionário deve ser descritivo e não prescritivo), mas talvez a falta do espírito de comunidade envolvente nos meios mais religiosos (mas que está longe de ser universal nesses mesmos meios) - não terá a ver com a falta de crença em si. De qualquer maneira, certas patologias podem ser agravadas/despoletadas pelo contacto com a religião ou pela adopção de crenças religiosas. Quanto à questão do altruísmo, isso não significa doença mental ou sofrimento. E o altruísmo nem sequer é requisito para o sucesso (antes pelo contrário). Ainda que tivesse bases para afirmar que o ateísmo contribuiu para o desenvolvimento/agrava a patologia, seria apenas um factor de risco (entre vários outros, e tal como a religião é para certas patologias) e não uma doença em si. O ateísmo em si, indica variedade de forma de pensar e de crenças - neste caso, é falta de crença (que poderá ter um fundo de variedade biológica). Nada mais.
Ref.:
1. “Are atheists mentally ill?”, Sean Thomas (http://blogs.telegraph.co.uk/news/seanthomas/100231060/are-atheists-mentally-ill/) (Via "Darwinismo")
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
O Ateísmo e a Terra Plana
O histerismo dos criacionistas
Mais propriamente do criacionista Francisco Tourinho. No blog dele, escreve o seguinte: «Cientistas e religiosos medievais jamais acreditaram que a Terra era plana, isso foi criado por acadêmicos ateus para fazer marketing com suas ideias, esses sim foram os verdadeiros opositores da verdade na Ciência. Calúnias contra a oposição desde o seu nascimento!» Verdade na ciência… Ciência é ciência, e o conhecimento que se obtém através do método científico é o mais próximo da verdade. Agora, comparemos a atitude anti-científica dos criacionistas que querem à viva força que tudo encaixe no seu livrinho de contos com a atitude maioritariamente pro-ciência dos ateus (ex.: aceitação da teoria da evolução e das evidências a favor da mesma). Quais são os mais anti-ciência? Os criacionistas histéricos agarrados ao livrinho de histórias ou os ateus esclarecidos? Sim, porque existem muitos ateus esclarecidos, mas criacionistas duvido muito. Quanto ao resto, seja como for, acreditar no criacionismo hoje em dia é tão estúpido como acreditar numa Terra plana. E pelos disparates em que os cristãos acreditam, não me admiraria nada se acreditassem também nesse.
Mais propriamente do criacionista Francisco Tourinho. No blog dele, escreve o seguinte: «Cientistas e religiosos medievais jamais acreditaram que a Terra era plana, isso foi criado por acadêmicos ateus para fazer marketing com suas ideias, esses sim foram os verdadeiros opositores da verdade na Ciência. Calúnias contra a oposição desde o seu nascimento!» Verdade na ciência… Ciência é ciência, e o conhecimento que se obtém através do método científico é o mais próximo da verdade. Agora, comparemos a atitude anti-científica dos criacionistas que querem à viva força que tudo encaixe no seu livrinho de contos com a atitude maioritariamente pro-ciência dos ateus (ex.: aceitação da teoria da evolução e das evidências a favor da mesma). Quais são os mais anti-ciência? Os criacionistas histéricos agarrados ao livrinho de histórias ou os ateus esclarecidos? Sim, porque existem muitos ateus esclarecidos, mas criacionistas duvido muito. Quanto ao resto, seja como for, acreditar no criacionismo hoje em dia é tão estúpido como acreditar numa Terra plana. E pelos disparates em que os cristãos acreditam, não me admiraria nada se acreditassem também nesse.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Religião vs. saúde mental
Certos psiquiatras encontraram uma relação entre neurose e
histeria e religião, que foi confirmada em algumas amostras num contexto de investigação
(1). Estudos (*) apontam para que certas crenças e práticas religiosas de
alguns pacientes psiquiátricos tenham origem numa predisposição patológica
(ex.: pacientes que acreditam estarem possuídos por demónios e que deus fala
com eles, etc.) e para que o contacto com a religião e experiências religiosas
possam despoletar esses episódios psicóticos, mas outros apontam para que a
religião possa servir para os aliviar do stress da doença e mesmo do stress de
situações menos agradáveis do dia-a-dia (1,2) (ex.: morte de parentes). É claro
que eu poderia propor que, por exemplo para lidar com a morte de um familiar,
pode-se simplesmente manter a sua memória viva, até mesmo através de gerações
futuras (em vez de uma “alma imortal”, por exemplo). As crenças religiosas não
são necessárias para lidar com esse tipo de situações. Há alternativas,
provavelmente melhores, uma vez que, segundo o psiquiatra canadiano Wendall Watters, «Tem
sido demonstrado que a doutrina cristã e liturgia desencorajam o
desenvolvimento de estratégias maduras de “coping” e das aptidões relativas às
relações interpessoais que permitem lidar de uma forma adaptativa com a
ansiedade causada pelo stress.» (2)
No ramo da psiquiatria há poucos profissionais que defendam
opções de tratamento relacionadas com a religião. Essas pérolas raras defendem
que se deve até rezar com os pacientes e apelam à intervenção de clérigos quando
o psiquiatra utilizar as crenças religiosas do paciente no tratamento – mas o
que se está à espera quando por baixo das afiliações do autor do artigo se lê
algo como isto: “Center for Spirituality,
Theology and Health, Duke University Medical Center, Durham, North Carolina,
USA.” É claro que para quem escreveu isto, o maior interesse não é a ciência
nem sequer o bem-estar dos pacientes ou as boas práticas num contexto clínico.
É propaganda religiosa pura e simples – marketing religioso (1). Não sou contra
respeitar as crenças ou antecedentes religiosos do paciente (o que se quer é
evitar o conflito entre o psiquiatra ou psicólogo e o paciente e não
fomentá-lo, de modo a que se evite sobrecarregar o doente com stress e não se
desvie o profissional dos seus objectivos), nem a favor de não as ter em conta,
para o bem e para o mal – e nenhum profissional de saúde (mental ou não) que se
preze deve ser contra isso (pelo menos metade numa pesquisa não são (2)). Mas
uma coisa é respeitar e ter em conta, outra coisa é incluir no tratamento a
promoção/apoio de práticas e crenças religiosas dos pacientes como estratégia
de “coping” – o psiquiatra deve manter uma posição neutra e promover
estratégias alternativas sem desrespeitar as crenças do paciente, podendo ou
não contradizer essas crenças conforme apropriado num contexto terapêutico ou
não, mesmo que possa ajudar a lidar com a ansiedade em certos casos, até porque
é sabido que podem despoletar episódios psicóticos e não se pode ter a certeza
na maioria dos casos de que o paciente não tem tendência para esses episódios,
podem ter uma base patológica e o psiquiatra não deve ajudar a perpetuar
ilusões. Não se devem utilizar essas práticas (a não ser talvez em último dos
últimos casos), pois podem ser uma “falsa ajuda” do que uma ajuda (ver citação
destacada) e não há estudos que apoiem a ideia de que o “tratamento religioso”
é melhor do que o tratamento “não religioso”. Não sou psicóloga nem psiquiatra
(tenho apenas 4 créditos de psicologia em todo o curso de ACSP e frequentei
algumas aulas de psicologia do desenvolvimento extra), mas não é preciso muito mais
que cultura geral básica, consulta das fontes certas e inteligência para
ver as possíveis implicações nefastas na saúde do individuo decorrentes dessa
prática, além de que seria deseducar a população sem qualquer benefício
adicional garantido, uma vez que as crenças religiosas não são confirmadas por
qualquer tipo de evidências (pelo contrário) e são tidas como superstição pela
maioria dos cientistas (e até psiquiatras e psicólogos).
Relativamente ao assunto da
relação entre depressão e religião, há poucos estudos e os resultados pendem
para ambos os lados (2).
Uma ocorrência comum é a discriminação de doentes
mentais por parte das comunidades religiosas – e uma das causas pode ser a
montanha de noções erradas que a própria religião leva a que se instale nessas
populações. Outra é o facto das pessoas darem concelhos contrários aos dos
profissionais com base na religião e escolherem erradamente não se tratarem com
base em crenças religiosas (3). Por último mas não menos importante, mesmo que o balanço do "tratamento religioso" e da religião em si fosse positivo em termos de saúde mental, isso não faz das crenças religiosas dos pacientes factos nem teorias cientificamente aceitáveis.
Notas:
*Exemplos:
Siddle, Ronald; Haddock, Gillian, Tarrier,
Nicholas, Faragher, E. Brian (1 March 2002). "Religious delusions in patients admitted to hospital with
schizophrenia". Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology 37 (3): 130–138. doi:10.1007/s001270200005.PMID 11990010.
Mohr,
Sylvia; Borras, Laurence, Betrisey, Carine, Pierre-Yves, Brandt, Gilliéron,
Christiane, Huguelet, Philippe (1 June 2010). "Delusions with Religious Content
in Patients with Psychosis: How They Interact with Spiritual Coping". Psychiatry:
Interpersonal and Biological Processes 73 (2):
158–172. doi:10.1521/psyc.2010.73.2.158.
Suhail, Kausar;
Ghauri, Shabnam (1 April 2010). "Phenomenology of delusions and
hallucinations in schizophrenia by religious convictions". Mental Health, Religion & Culture 13 (3): 245–259. doi:10.1080/13674670903313722.
Referências:
1. “Religion and mental health:
what should psychiatrists do?”
Harold G. Koenig, Professor of Psychiatry and behavioral Sciences,
Associate Professor of Medicine, Psychiatric Bulletin (2008)32: 201-203doi:10.1192/pb.bp.108.019430 (http://pb.rcpsych.org/content/32/6/201.full)
2. Religion, Spirituality, and
Mental Health, January 10, 2010, Simon Dein, FRCPsych, PhD – Psychiatric Times (http://www.psychiatrictimes.com/articles/religion-spirituality-and-mental-health)
3. «Module
7: Cultural Perspectives on Mental Health» - Unite for Sight (http://www.uniteforsight.org/mental-health/module7)
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Dawkins e os Criacionistas
No “Darwinismo, o Mats escreveu uma data de baboseiras acerca de certas
observações do Dawkins, citando um artigo em que o autor pretende desconstruir
o que ele diz… distorcendo tudo a seu belo prazer, e escrevendo disparates:
1. “Se tu tivesses nascido na
Índia….”
«[Dawkins] tenta apresentar este argumento contra a crença religiosa
dizendo: “Se tivesses nascido na Índia tu provavelmente estarias a adorar
Vishnu”. E depois? A forma como as pessoas passaram a ter uma crença não
nos diz nada sobre a veracidade dessa mesma crença. Com este argumento, Dawkins
dá um exemplo clássico da Falácia Genética; ele tenta demonstrar a origem duma
crença, e com isso “prova” que essa crença é falsa.» - Isto parece ter mais a ver com “inspiração divina/ revelação” vs.
“cultura e geografia” do que “existência” vs “não existência”. Não é falácia
genética. Só nos diz que a crença das pessoas (algumas até dizem mesmo ser
inspiradas por Deus) é devida à cultura e geografia, que fazem as pessoas propensas
a acreditar mais numas coisas do que noutras e interpretar experiências a essa
luz. Outra vertente para que a
afirmação do Dawkins pode chamar a atenção é que uma possível alternativa à
existência de deuses é que estes foram apenas invenção do ser humano, e não
existem na realidade – não estou a argumentar que porque foi inventado e assim
as gerações seguintes passaram a acreditar, então não existe, mas apenas a
apontar uma hipótese – a mais provável.
«Dawkins afirmou
que certa vez ele esteve presente numa convenção cheia de teólogos e filósofos,
e, à frente deles, tentou refutar o argumento ontológico falando dum
maximamente grande porco voador. Tal como o Dr. William Lane Craig ressalvou,
isto é embaraçoso. Pergunto-me que imagem Dawkins passou de si próprio nesta
conferência de teólogos e filósofos. Dawkins escreve: Eles recorreram à lógica
modal para refutar o que eu estava a dizer. Para mim, isto é o mesmo que dizer,
“Eles refutaram o que eu estava a dizer” visto que o argumento ontológico é um
exemplo de lógica modal. Ficamos logo com a ideia de que Dawkins não faz ideia
nenhuma do que se está a falar.» Isso
não é bem assim. No “God Delusion”, Dawkins escreve que apresentou a um grupo
de teólogos e filósofos uma adaptação do argumento ontológico para provar que
os porcos podem voar. Então, eles foram obrigados a recorrer à lógica modal
para o refutarem. O que Dawkins fez foi uma paródia ao argumento ontológico (à
lógica modal em si) – não vejo onde está o problema. Nada disto quer dizer que
a filosofia em geral não serve para nada.
«Dawkins respondeu a este argumento
afirmando que, mesmo que se aceite que o universo tem uma Causa, isso nada faz
para mostrar que o Deus da Bíblia existe. Esta resposta de Dawkins é
irrelevante porque não era esse o propósito do argumento; o propósito do
argumento era o de mostrar que a Causa do universo era Eterna, Imaterial,
Ilimitada e Sobrenatural. O argumento nunca tentou provar que o Deus da Bíblia
era o Criador, logo, Dawkins não entendeu nada do argumento.» - Provavelmente
o Dawkins só queria apontar que é pouco relevante para os cristãos (talvez não
tanto para os deístas). O que o Dawkins diz é relevante, pois este argumento é
normalmente apresentado por teístas, em geral cristãos. Se não pretende
demonstrar que é o deus deles, ou sequer um deus teísta, escusam de o usar,
pois de nada lhes serve – não são deístas, e a causa nem precisa de ser
“inteligente”, “pensante”, com emoções e desejos humanos, como normalmente se
concebe “deus”. E “sobrenatural”, depende da definição de sobrenatural. E
“imaterial”? Não é o mesmo que divino. Nem sequer temos garantido que “tudo”
(incluindo o universo) o que “começa” a existir tem uma causa. O máximo que
podemos inferir é relativamente ao que está dentro do universo, nada
relativamente ao universo em si – não sabemos se o universo, mesmo se
considerarmos um “começo” tem que ter tido uma causa ou teve uma causa. E como
escreveu um comentador (assina “Sodré”): “Eu julgo que sempre existiu
Algo físico obediente a leis ainda desconhecidas, outros julgam que sempre
existiu Algo transcendente… Mas sempre terá existido Algo…” Possivelmente. E
não necessariamente um deus. O impacto deste argumento num debate sobre a
existência de qualquer deus é pouco mais que zero. Pouco ajuda a causa dos
cristãos desesperados. Next.
4. As suas opiniões sobre a
complexidade.
«Dawkins pensa que Deus é Uma
Entidade enormemente Complexa, e como tal, não seria um avanço no conhecimento.
Segundo Dawkins, não podemos invocar Deus como explicação porque Deus é ainda
mais Complexo que aquilo cuja origem Ele é a explicação. Isto faz parte do
argumento central do livro “The God Delusion”. (…) Uma explicação pode ser mais
complexa que uma explicação rival mas ser aceite porque tem um poder e um
alcance explicativo maior. [O deus da
Bíblia não é aceite porque não pode explicar coerentemente o que observamos,
não há evidências a favor da sua existência, como o próprio Dawkins já referiu
várias vezes, etc.] Para além disso, se alguém se preocupa com a
simplicidade, então Deis [sic] ajusta-Se a esse critério; Ele é Uma Mente sem
um corpo; as Suas ideias podem ser muito complexas mas a Mente em si não é.» - Boa sorte em demonstrar que isso é ao
menos possível (e serve também para quem diz que as únicas coisas que encaixam
na descrição que se deduz da tal “causa” são mentes inteligentes e coisas
abstractas – eu diria, as únicas coisas que conhecemos, e quanto à mente
inteligente, nada garantido) – nos comentários, o Mats respondeu: “É
auto-evidente pela existência da matéria física”, e “e pela impossibilidade de
forças naturais geram [Sic] matéria física. Isto leva-nos a inferir que deve
existir pelo menos UMA Mente sem corpo físico.” Forças naturais… Ou seja,
causas que se conheçam. E eu pergunto-me, porquê uma “mente”? Ao responder-lhe
foquei-me em demonstrar que flutuações quânticas criavam matéria e apresentar
hipóteses interessantes sobre a origem do universo que envolvem flutuações
quânticas**. Mas nada garante ao Mats que, por não sabermos qual foi a “causa”,
era necessária a tal “mente sem corpo”. Além disso… o que se passou com o
“Caps” do Mats? Ele já não se limita a escrever “Deus” com letra maiúscula, mas
tudo o que se relaciona com deus. Tem muito medo de ir parar ao inferno, mas
muito pouca vergonha.
5. Que criou o Criador? [Sic]
«Dawkins pensa que não se pode
usar Deus como explicação porque com isso, outro problema é gerado –
nomeadamente, quem criou Deus? Esta pergunta tem sido defendida por muitos
ateus, chegando até a chamá-la de “a pergunta que nenhum teísta pode
responder.” (…) Dawkins mantém uma atitude auto-congratulatória, (…) dizendo às
pessoas que “este é um argumento sério, que nenhum teólogo foi até hoje capaz
de dar uma resposta convincente.” O problema (…) é que (…) De modo a que se
possa dizer que A causou B, não é preciso demonstrar a origem de A. » -
“De modo a que se possa dizer que A causou B, não é preciso demonstrar a origem
de A.”? Certo. Mas os teístas, que eu
saiba continuam sem resposta à pergunta. O ateu tem o problema de explicar a
origem do universo, que agora já não é um problema assim tão grande, com os
avanços da física, enquanto que o teísta tem que explicar a origem do seu Deus
– e esse, ao que parece é um problema ainda maior. Essa pergunta do Dawkins e
de outros é pertinente, na medida que exige aos teístas a resolução do problema
deles, tal como muitos exigem a resolução do problema do universo.
Resumindo:
nos pontos 1, 2 e 3 o autor do artigo (muito provavelmente) distorceu os pontos
de vista do Dawkins, e no ponto 5,
a pergunta do Dawkins é pertinente e os teístas não
conseguem responder. No ponto 4, bem, como eu disse, boa sorte em demonstrar
que é possível haver mente sem corpo.
Com o único
objectivo de caluniar Dawkins e os ateus em geral, o autor escreve: «A
injustificada devoção que a maioria dos militantes ateus têm por Dawkins diz
muito do seu baixo grau de exigências e da sua credulidade infantil.» - A injustificada devoção que a maioria dos fanáticos cristãos têm pela
Bíblia diz muito do seu baixo grau de exigências e da sua credulidade infantil.
«Apesar da
grande estima que o militante ateu comum tem por ele, os académicos tendem a
olhar para ele como uma figura humorística, agitador de punho contra fadas
madrinhas.» E… que percentagem desses “académicos” de que fala o autor são
cristãos enviesados? Provavelmente, muitos.
A cereja no
topo do bolo é chamarem-lhe “sociopata” – criacionistas
e não só***. Como na maioria dos casos, sendo leigos na área da psicologia e
dado o contexto, é provável que estejam a usar o termo como se fosse
equivalente a “psicopata”. Se não estão, não podiam estar mais longe da
verdade. Se estão, também não estão propriamente perto. Nem por sombras. Há
anos que leio o que o Dawkins escreve e assisto às palestras e entrevistas com
ele. Ele é um pouco manipulador, assumindo que ele por vezes usa argumentos que
podem induzir o adversário a interpretar de maneira errada e a não perceber o
ponto de vista à primeira (no caso dos criacionistas, provavelmente nem à
primeira, nem à segunda, nem à terceira) e que não é apenas fruto das mentes
retorcidas dos criacionistas. É também manipulador pois goza com o adversário
em público. Mas isso é só uma característica numa lista de 20. Parece um tanto
impulsivo naquilo que escreve no Twitter, por exemplo, e é um tanto frio no que
afirma. Mas isso são apenas três características numa lista enorme, mais uma
vez, se considerarmos “falta de empatia” como diferente de 0, que significa que
não se aplica de todo à pessoa em causa. Há ainda que admitir que ele tem
charme, lábia e pode ser bastante agradável. Merece um 2, é verdade. Sofre de
tédio? Pelo que li sobre a biografia dele, provavelmente. Isto dá um total de 7 a 10 pontos na PCL-R. Uma
pessoa dita saudável pode ter até 10 nessa lista, e uma pessoa com apenas
ligeiras inclinações psicopáticas tem até 19. Tendo isso em consideração, é
muito provável que o Dawkins não seja nenhum psicopata, apenas um cientista reformado
e um ateu mais ou menos sensato.
Notas:
* Ver: “The
Kalam Cosmological Argument” – Comments (Richard Dawkins Foundation for Reason
and science website - http://old.richarddawkins.net/discussions/507717-the-kalam-cosmological-argument/comments?page=1)
** Fontes
sugeridas: http://www.colorado.edu/philosophy/vstenger/Cosmo/FineTune.pdf
(hipótese de Linde, que propõe uma “espuma” de fundo do espaço-tempo - onde
partículas subatómicas vão aparecendo e desaparecendo - criada a partir de
partículas virtuais); http://debunkingwlc.wordpress.com/2010/08/11/alexander-vilenkins-model-of-cosmic-origins/ (ver também: http://en.wikipedia.org/wiki/Inflation_(cosmology)) e
http://debunkingwlc.wordpress.com/2010/07/31/are-vacuum-fluctuation-models-dead/
(outra hipótese interessante sobre a origem do universo, que também
envolve flutuações quânticas.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)