Mais:
Este blog é a continuação do meu velho blog com o mesmo título e vai tratar de assuntos diferentes, como psicologia e neurociências, mas também de evolução como anteriormente, um pouco de filosofia de vez em quando, ateísmo e religião - e isso inclui demolir argumentos criacionistas (e escarnecer deles).
sábado, 6 de setembro de 2014
Passagens de modelos com mulheres "normais"
Sim, as passagens de modelos com mulheres da "vida real" - sim, porque a maioria das mulheres com quem convivemos e nos cruzamos no dia-a-dia encaixam neste espectro algo diverso e não no que estamos habituados a que nos chegue através do Fashion TV. Mulheres com curvas - peito, rabo, ancas, cintura e pernas que se vejam, mais saudáveis no geral do que o que vemos nas passagem da Victoria Secret - e a roupa, nada má.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Transtornos de personalidade e o seu valor adaptativo
À
primeira vista, qualquer pessoa com um transtorno de personalidade parece estar
em desvantagem, cada qual à sua maneira. Como exemplo, um paciente com
transtorno borderline é muito temperamental, sente muito fortemente as emoções
(mais do que o esperado de acordo com a situação), tem problemas de controlo de
raiva, irritabilidade e impulso, necessita de estimulação - à semelhança do que
acontece em pacientes com psicopatia secundária (o tipo mais neurótico) (1),
por exemplo. A mulher borderline é a típica cabra raivosa, com ataques
psicopáticos (apesar do nível de empatia emocional variar, podendo encontrar-se
diminuído ou não - e muitas vezes não é "utilizada" no dia a dia devido
ao turbilhão emocional do próprio - no que se relaciona com sentimentos de
compaixão e pena - sim, sentir pena está relacionado com a reacção empática,
mas é o nível menos exigente, devido ao distanciamento - e poderem atingir
níveis mais altos de desconforto emocional face ao sofrimento de outros em
relação aos indivíduos usados para controlo (2)), por vezes com sentimentos de
omnipotência, depressiva ou maníaca, a pular de relação amorosa em relação
amorosa, outras vezes apenas de relação sexual em relação sexual (3, 4). O que
é que isto tem de vantajoso/adaptativo? À primeira vista, nada. É verdade que
não comecei por um dos melhores transtornos neste aspecto (pelo menos a meu
ver). Mas é de notar que mesmo nestes pacientes, em bastantes casos as piores
partes não levam a melhor - tornam-se bem sucedidos, e quem sofre de transtorno
borderline "construiu" várias defesas adaptativas, que o tornam mais
resistentes à adversidade - por exemplo, defesas narcisistas e desvalorização
de pessoas em relação às quais existe uma ambiguidade de sentimentos (4) - e
assim, mais provavelmente do que se deixassem "ir abaixo" por
completo com problemas de auto-estima e ansiedade (em comparação com pessoas
com transtorno de personalidade depressivo, por exemplo), eles atingem a idade
adulta (de reprodução) e vivem mais tempo. Sim, certos transtornos de personalidade trazem
vantagem aos indivíduos em comparação com outros transtornos de personalidade,
e alguns até suplantam os "normais" ou neurotípicos. O exemplo que
salta mais à vista é o psicopata primário (embora o nível do valor adaptativo
se estenda também ao narcisista* anti-social): não sente remorsos, não
estabelecem relações afectivas, ou seja, relacionam-se apenas a um nível
superficial, geralmente sentem pouca ou nenhuma empatia pelos outros (não se
sentem mal como eles, nem por eles, nem compaixão), têm défice emocional. É
também promíscuo, narcisista, egocêntrico, impulsivo, manipulador, mentiroso
patológico, ilude os outros com o seu charme superficial, tem dificuldade em
aprender com os erros, pode ser caracterizado como "amoral" e sofre
de tédio, necessitando de estimulação. Tolera mal a frustração, ficando
enraivecido e é vingativo. Existe um teste (profissional) de psicopatia e
transtorno de personalidade anti-social (do qual a psicopatia é considerado um
subtipo), em que estas características são classificadas pelo próprio paciente
(acompanhados por um profissional) com os números 0 (não se aplica), 2
(aplica-se) e 1 (aplica-se menos relativamente a outras características) (5).
Se a isto associarmos uma inteligência pelo menos um pouco acima da média,
temos alguém que tem facilidade em tomar decisões controversas (sobretudo
moralmente controversas), tem facilidade (sobretudo moral, também) em ludibriar
outros para atingir os seus objectivos, auto-estima elevada, que provavelmente
valorizam a imagem e a posição social (que depende bastante da profissão), e
tendo inteligência suficiente, acabam por ser pelo menos razoavelmente
realizados. Quando o público em geral (leigo) pensa em psicopatia, tende muito
provavelmente a visualizar um assassino, normalmente em série, ou pelo menos um
criminoso irremediável, que acaba morto ou na prisão durante imenso tempo,
devido à sua representação na televisão, no cinema e até na literatura. Mas,
dependendo das capacidades intelectuais de cada um, os psicopatas podem ser
médicos, advogados, banqueiros, economistas, empresários, ou ter um emprego
que, pelo menos, os sustente. Em termos evolutivos, um psicopata (sobretudo o
psicopata do sexo masculino) tem boas probabilidades de se reproduzir (é
promíscuo, mas pouco afectivo, pode servir-se do seu charme superficial,
facilidade em mentir, enganar e manipular para arranjar parceiras) e tem mais
probabilidade de abdicar de participar na educação dos filhos, deixando-os com a
parceira, logo menos custos para o próprio. Podem muitas vezes chegar ao topo
(ex.: numa empresa), bajulando, manipulando ("enrolando"), mentindo,
e até aumentando o desempenho, quando disso depende algo importante, como uma
promoção. O psicopata secundário é mais medricas, mais neurótico, menos
dominante socialmente e tem mais características do transtorno borderline do
que os psicopatas primários. Mas
tal como estes é promíscuo, pouco afectivo, pouco empático, portanto não tem
problemas (ou tem menos) em mentir, enganar, manipular ou tomar decisões
moralmente controversas e não sofre com problemas de auto-estima. É por
vezes designado por sociopata, que é um termo antigo e por vezes também usado
para descrever outros pacientes anti-sociais (1, 6) (os que sofreram acidentes
que provocaram o transtorno, ou indivíduos com um sentido de "bem" e
"mal" diferente do que era de esperar dado o contexto cultural em que
foi criado, tendo provavelmente algo afectado no circuito empático (6)), o
que só vem criar confusão. Será possível que algum dia a população
humana seja dominada por psicopatas (as evidências sugerem que é hereditário,
pelo menos no caso da psicopatia primária)? A (hipotética) pressão selectiva
não me parece suficientemente forte.
Actualização: Como já anteriormente referi, mais do que um transtorno de personalidade pode coexistir num paciente - Uma conjugação possível é borderline + psicopata, mais sensível, emocional e vulnerável do que o psicopata "puro" (e provavelmente com problemas de abandono - namorados e namoradas, cuidado), mas mesmo assim com muitas das características, incluindo empatia diminuída, falta de remorsos e falta de escrúpulos, que dão potencial para o sucesso ao psicopata.***
Actualização: Como já anteriormente referi, mais do que um transtorno de personalidade pode coexistir num paciente - Uma conjugação possível é borderline + psicopata, mais sensível, emocional e vulnerável do que o psicopata "puro" (e provavelmente com problemas de abandono - namorados e namoradas, cuidado), mas mesmo assim com muitas das características, incluindo empatia diminuída, falta de remorsos e falta de escrúpulos, que dão potencial para o sucesso ao psicopata.***
Referências:
1. "DOES SECONDARY PSYCHOPATHY EXIST? EXPLORING CONCEPTUALISATIONS OF PSYCHOPATHY AND EVIDENCE FOR THE EXISTENCE OF A SECONDARY VARIANT OF PSYCHOPATHY", Christopher Thomas Gowlett - Internet Journal of Criminology © 2014, ISSN 2045 6743 (Online) (disponível em: http://www.internetjournalofcriminology.com/Gowlett_Does_Secondary_Psychopathy_Exist_IJC_Jan_2014.pdf)
2. "Social cognition in borderline personality
disorder", Stefan Roepke, Aline Vater, Sandra Preißler, Hauke R. Heekeren, Isabel Dziobek, Front Neurosci.
2012; 6: 195. Published online Jan 14,2013. doi:10.3389/fnins.2012.00195, PMCID: PMC3543980 (disponível
em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3543980/)
3. "Borderline personality Test" (disponível
em: http://psychcentral.com/quizzes/borderline.htm)**
4. "BEYOND SPLITTING: OBSERVER-RATED DEFENSE
MECHANISMS IN BORDERLINE
PERSONALITY DISORDER", J. Christopher Perry et
al, Psychoanalytic Psychology © 2012 American Psychological Association, 2013,
Vol. 30, No. 1, 3–15 0736-9735/13/$12.00 DOI: 10.1037/a0029463 (disponível
em: http://www.apa.org/pubs/journals/features/pap-a0029463.pdf)
5. "Hare Psychopathy Checklist" (disponível
aqui: http://www.minddisorders.com/knowledge/Hare_Psychopathy_Checklist.html)/ "An Introduction to the Psychopathy Checklist-Revised (PCL-R)", J. Scarlet (disponível em: http://psychopathyinfo.wordpress.com/2011/12/31/an-introduction-to-the-psychopathy-checklist-revised-pcl-r/)
6. Pemment, J., Psychopathy versus sociopathy:
Why the distinction has become crucial, Aggression and Violent Behavior
(2013),
http://dx.doi.org/10.1016/j.avb.2013.07.001 (disponível em: http://www.psychologytoday.com/files/attachments/112693/psychopathy-versus-sociopathy.pdf)
Notas:
*Falta de
empatia (como mencionado num texto anterior) e remorso, entre outras são também
características do transtorno de personalidade narcisista - o máximo que
conseguem sentir, de acordo com profissionais que trabalharam com esses
pacientes, é um ligeiro desconforto porque têm motivos egoístas para querer que
fique tudo "bem" - a aparência de perfeição está ameaçada - mas não
pelos sentimentos da outra pessoa, pelo que podem explicar-se (muitas vezes
evitando pedir desculpa) ou tentar compensar a pessoa e
reparar superficialmente a relação, é raro assumirem a culpa por
completo e tendem a racionalizar (ver testemunho aqui: http://thenarcissisticlife.com/the-narcissist-and-apology/)
**Elaborado por um especialista (http://psychcentral.com/about/how-we-develop-our-tests-quizzes/)
***Ver testemunho de um paciente, como exemplo: http://www.experienceproject.com/stories/Have-Borderline-Personality-Disorder/461161
Conselhos
para quem lida (ou pelo menos está convencido de que lida) com um parceiro,
amigo ou familiar com um destes transtornos de personalidade: Se é um psicopata (primário ou secundário), fujam, não
tenham pena e muito menos compaixão deles – eles jogam com as vossas emoções e
empatia, por vezes só para vos poderem arreliar durante mais um bocadinho
depois disso. Para eles é um jogo – até a vossa relação pode ser um jogo, cheio
de enganos e mentiras. Se é borderline, convençam-no (manipulem-no - lol) a ir
ao psicólogo, psiquiatra ou ambos, se tiverem intimidade suficiente - e só
nessa situação é que interessa. Se não têm essa intimidade, afastarem-se é uma
opção. Se é anti-social ("sociopata"), provavelmente é criminoso ou
tem tendências criminosas. Fujam. Quanto aos narcisistas, existem subtipos mais
vulneráveis e menos vulneráveis – até com tendências psicopáticas. Dos
primeiros, afastem-se sem conflito, se passarem na rua podem retribuir um olá.
Se forem conjugues, podem tentar a terapia conjunta – ou o divórcio. Dos
últimos, fujam. Eu gosto de pensar nos transtornos de personalidade da seguinte
forma: o psicopata primário é o maquiavélico, mentiroso, pouco emocional, pouco
empático, sem remorsos, o psicopata secundário é o irmão “rabugento” e
medricas, o anti-social é o primo delinquente, o narcisista é o primo
convencido, o borderline o primo sensível, e o histriónico é o dramático e
superficial, mas mais empático e afastado (são todos transtornos do
cluster B). Gosto da analogia dos primos porque todos têm algo em comum, e
também diferenças que são decisivas para o diagnóstico.
Por
último, deixo um conselho aos fãs do Sherlock Holms (BBC): não se deixem
manipular pelo malandro, a dar um tom mais "soft" e por isso mais
"aceitável" à sua condição de psicopata (ou pelo menos, tendências
psicopáticas), o que pode também ser interpretado como arrogância, e por
isso intimidativo, em certos contextos. “High functioning sociopath”
é uma designação com pouco préstimo em termos de diferenciação - a parte do
"sociopath", pois é usado também para descrever dois outros grupos de
indivíduos anti-sociais, e não só o psicopata secundário. Apesar do
“sociopata” ser visto pelo público (e uma pesquisa rápida online evidencia-o)
como um paciente com uma forma menos grave de psicopatia, nenhum dos grupos ou
o subtipo de psicopatia que pode designar se traduz num impacto social menos
grave do que o subtipo primário – até podem ser piores. Não há razão para "sociopata" ser mais aceitável do que "psicopata", pelo menos em termos de comportamento e impacto. "High
functioning", se quiser apenas dizer inteligente e por isso bem sucedido,
está obviamente correcto e diferencia-o do tipo de caso mais
exposto ao público, portanto seria uma observação pertinente. Nem todos os
psicopatas são bem sucedidos, alguns acabam presos ou mortos pela polícia ou
sistema de justiça. Uma interpretação alternativa é que ele se apresenta como um "sociopata" (ou um psicopata secundário, neste caso) e reage forçadamente como um por achar que isso o livra de qualquer fraqueza (ou pseudo-fraqueza) que ele tenha.
sábado, 30 de agosto de 2014
Um "geneticista" (não) demonstra que a teoria da evolução não está de acordo com as evidências - genéticas e outras
Maciej
Giertych é o que cá em Portugal se poderia traduzir por engenheiro florestal e
auto-intitulado geneticista e professor de genética. Não tem nenhum grau
académico em nenhuma área da genética, mas sim (provavelmente) alguma formação
académica a nível da licenciatura em algo que se pode traduzir por engenharia
florestal aqui em Portugal, que terá sido o suficiente para fazer uma tese sobre
genética florestal e, possivelmente, ter alguns artigos que tocam no assunto
publicados – o que não faz dele um “geneticista”. Um geneticista é um médico ou
biólogo com uma “especialização” (com instrução académica) em genética. O que
ele tem não é uma especialização, é formação geral durante uma licenciatura. O
trabalho dele valeu-lhe um grau designado “habilitation” duma universidade que
ainda não era universidade, então é provável que o grau de exigência não seja
comparável ao que normalmente se designa “habilitation”, portanto nem por aí os
criacionistas, seus fãs, podem pegar. Para verem o disparate, isso é comparável
a chamar geneticista a um psicólogo só porque teve uma ou duas disciplinas de
genética na universidade e fez uma monografia sobre, por exemplo, evidências para a hereditariedade da psicopatia (ou outra doença qualquer), ou a um bioquímico (que tem em muitos casos a mesma “dose”
de formação académica no assunto). Os criacionistas adoram-no, mas vários
cientistas de vários países protestaram sobre os disparates que ele escreveu
para a Nature (1) e que repetiu (e acrescentou) noutros lados (2) (e refutaram
ou desmentiram alguns entretanto) (3). Se ele é professor de genética, então
nesse caso, eu teria o cuidado de pôr os meus filhos (se os tivesse) numa
universidade onde ele não trabalhasse.
- Ele quer levar o público leigo (sim, porque com a comunidade científica não tem hipótese) a acreditar que o facto da deriva genética e da selecção natural reduzirem a variabilidade é um problema para a evolução.
- Claro que não é nenhum problema, pois a variabilidade é reintroduzida pelas inevitáveis mutações (no caso da selecção basta aliviar a pressão selectiva) e eles saberiam que não é problema se estudassem um pouco. Actualmente há recursos, inclusivamente online, acessíveis a todos (4). Além disso, para aumentar a informação (seja em que sentido for) temos a duplicação de genes combinada com mutações pontuais. Como vêem, não há problema. Se é possível que ocorra extinção em espécies já ameaçadas e com populações pequenas? Sim. Mas isso não impede que outras populações continuem a evoluir. E registo de extinção é o que não falta - cerca de 90% das espécies. umas extinguem-se, outras evoluem. Como actualmente.
- Como não podia deixar de ser, o Mats traduziu o texto do Giertych (e concorda com todos os disparates). Um dos seus seguidores criacionistas comentou o seguinte (citando vários artigos):
1. BIOLÓGICO – precisamos divulgar e estudar os trabalhos de “descontinuidade sistemática” entre grupos de especies para verificarmos os limites versus ancestralidade totalmente comum (sem limites) http://ncse.com/rncse/26/4/baraminology
2. GENÉTICO – Como nos divulgou Sergei Matsenko, a forte opinião do professor de genética, Maciej Giertych, demonstra um resumo das posições em conflito entre criacionismo e teoria da evolução http://bit.ly/1lzsChH , é preciso conhecer os trabalhos recentes do Dr J C Sanford (Entropia genética) e os trabalhos do Dr Gerald Crabtree (Fragil intelecto, publicado na TRENDS em 2010) para só então perceber o que está em jogo.
2. GEOLOGIA SEDIMENTOLOGIA – Precisamos estudar a geologia catastrofista e a formação simultanea das camadas (BERTHAUT) em contraste com a GEOLOGIA GRADUALISTA DE LYELL EM QUEM DARWIN SE APOIOU http://www.sedimentology.fr/
3. DATAÇÃO – Precisamos estudar e divulgar questionamentos aos métodos de datação radiométrico http://www.icr.org/rate/ bem como saber pelo mesnos algumas das mais de 100 perspectivas datacionais que combatem E DISPUTAM COM o paradigma geocronologico atual…
4.PALEONTOLOGIA TRANSICIONAL E PALEONTOLOGIA EM T - Temos que estudar o pontualismo que tenta justificar a falta de transicionais graduais na coluna geológica, reclamados pelos criacionistas durante 150 anos, e defendidos pelos darwinistas até recentemente, e que cessou quando Gould apresentou a tese saltacionista que defende transformações rapidas biologicas , mais escassez de variação devido preservar mais especies “na moda” entre outros argumentos. E entender a PALEONTOLOGIA EM T que é uma tese que desenvolvo desde 2010. Representa o numero pequeno de especies na coluna geologica em contraste com numero grande de especies na atualidade formando a imagem de um T. (...)
4. ORIGEM DA VIDA – precisamos estudar quimica e bioquimica, no livro FOMOS PLANEJADOS do Marcos Eberlin , artigos do stephen Meyer, Behe e outros da discovery… para combater ideias de abiogenesis, panspermia, etc que fazem a ciencia passar muita vergonha com artigos reputando ao nada a origem de tudo.... (Sic)»
O último ponto (sobre os fósseis), pelos resultados de uma pesquisa rápida online, parece-me uma invenção criacionista, pois não encontrei nenhum artigo sério sobre o assunto. Quanto ao resto, o meu comentário:
«Relativamente ao ponto 1, ao menos leu o artigo que citou? Da conclusão do artigo em 1: «Despite its use of computer software and flashy statistical graphics, the practice of baraminology amounts to little more than a parroting of scientific investigations into phylogenetics. A critical analysis of the results from the one “objective” software program employed by baraminologists suggests that the method does not actually work. The supremacy of the biblical criteria is explicitly admitted to by Wood and others (2003) in their guidebook to baraminology, so all their claims of “objectivity” notwithstanding, the results will never stray very far from a literal reading of biblical texts.»
O mesmo para o artigo citado no ponto 2: «Our experiments on the formation of strata are fundamental because they demonstrate, ‘inter alia’, that in a continuous turbulent current many superposed strata form simultaneously and progress together in the direction of the current; they do not form successively as believed originally. These experiments explain a mechanism of strata building, showing empirically the rapid formation of strata.» – Como indicado neste parágrafo, são precisas condições específicas (catastróficas), que provavelmente não se aplicam, em todos os casos, nem numa maioria, e é possível diferenciar se o tempo que passou entre camadas foi muito ou pouco (mais sobre o assunto aqui: http://www.theotokos.org.uk/pages/creation/berthaul/henke.html).
«precisamos estudar quimica e bioquimica, no livro FOMOS PLANEJADOS do Marcos Eberlin , artigos do stephen Meyer, Behe e outros da discovery…» Pode começar pelo básico da bioquímica e da genética molecular (pode dirigir-se a uma faculdade perto de si, ou simplesmente a uma biblioteca), continuar para a literatura científica (sabe, aqueles artigos que aparecem quando pesquisa no pubmed, sujeitos a revisão de pares), e só depois deve ler os disparates dos criacionistas, já com “bagagem” para perceber (pelo menos em parte) porque estão errados. Comentários e críticas de cientistas da área sobre o assunto também costumam ser úteis (para quem tem capacidade e conhecimento para perceber a matéria, claro)
«Relativamente ao ponto 1, ao menos leu o artigo que citou? Da conclusão do artigo em 1: «Despite its use of computer software and flashy statistical graphics, the practice of baraminology amounts to little more than a parroting of scientific investigations into phylogenetics. A critical analysis of the results from the one “objective” software program employed by baraminologists suggests that the method does not actually work. The supremacy of the biblical criteria is explicitly admitted to by Wood and others (2003) in their guidebook to baraminology, so all their claims of “objectivity” notwithstanding, the results will never stray very far from a literal reading of biblical texts.»
O mesmo para o artigo citado no ponto 2: «Our experiments on the formation of strata are fundamental because they demonstrate, ‘inter alia’, that in a continuous turbulent current many superposed strata form simultaneously and progress together in the direction of the current; they do not form successively as believed originally. These experiments explain a mechanism of strata building, showing empirically the rapid formation of strata.» – Como indicado neste parágrafo, são precisas condições específicas (catastróficas), que provavelmente não se aplicam, em todos os casos, nem numa maioria, e é possível diferenciar se o tempo que passou entre camadas foi muito ou pouco (mais sobre o assunto aqui: http://www.theotokos.org.uk/pages/creation/berthaul/henke.html).
«precisamos estudar quimica e bioquimica, no livro FOMOS PLANEJADOS do Marcos Eberlin , artigos do stephen Meyer, Behe e outros da discovery…» Pode começar pelo básico da bioquímica e da genética molecular (pode dirigir-se a uma faculdade perto de si, ou simplesmente a uma biblioteca), continuar para a literatura científica (sabe, aqueles artigos que aparecem quando pesquisa no pubmed, sujeitos a revisão de pares), e só depois deve ler os disparates dos criacionistas, já com “bagagem” para perceber (pelo menos em parte) porque estão errados. Comentários e críticas de cientistas da área sobre o assunto também costumam ser úteis (para quem tem capacidade e conhecimento para perceber a matéria, claro)
Entropia genética não é, primeiro que tudo, um termo científico, é um jargão criacionista, e o que o Sanford diz (especialmente num livro dirigido ao público leigo) tem sido contestado por uma data de cientistas [que apontam que o que ocorre a nível das populações humanas não se estende a todas as formas de vida, que as mutações prejudiciais não devem ser tantas como pode parecer à primeira vista quando se pensa nisso, pois a maioria das mutações vão calhar no DNA lixo e ainda soluções evolutivas que transformam o “problema” num não-problema – ex.: epistasia sinergética e “soft selection”, com menos custos para a população]: http://letterstocreationists.wordpress.com/stan-4/,http://sandwalk.blogspot.pt/2014/04/a-creationist-tries-to-understand.html, http://newtonsbinomium.blogspot.pt/2006/10/review-of-mystery-of-genome-ii.html, [http://www.genetics.org/content/190/2/295.full - Rates and Fitness Consequences of New Mutations in Humans, Peter D. Keightley1, doi: 10.1534/genetics.111.134668Genetics February 1, 2012 vol. 190no. 2 295-304, http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022519385701671 - Contamination of the genome by very slightly deleterious mutations: why have we not died 100 times over?, Alexey S. Kondrashov, Journal of Theoretical Biology - Volume 175, Issue 4, 21 August 1995, Pages 583–594].»
Relacionado com o assunto da
acumulação de mutações deletérias aquando da diminuição do tamanho da população
(e a posterior compensação através da acumulação de mutações benéficas) temos o
artigo do geneticista de populações Michael Lynch (et al) de 2003, publicado na
revista “Evolution” (Evolution 57,
1022-1030) *. Nem neste caso a acumulação de mutações deletérias constitui problema para a evolução.
Referências:
1. "Creationism,
evolution: nothing has been proven", Nature 444, 265 (16 November 2006) |
doi:10.1038/444265d; Published online 15 November 2006, Maciej Giertych
(disponível em: http://www.nature.com/nature/journal/v444/n7117/full/444265d.html)
2. "Professor of
genetics says 'No!' to evolution", Maciej Giertych - Creation Ministries
International (disponível em: http://creation.com/professor-of-genetics-says-no-to-evolution) - Via "Darwinismo"
(http://darwinismo.wordpress.com/2014/08/29/professor-de-genetica/#comments).
3. NATURE|Vol 444|7 December 2006 (correspondência - várias
cartas) (disponível em: http://www.eko.uj.edu.pl/rutkowska/abs/2006_nature.pdf)
- Via "Pharyngula" (http://scienceblogs.com/pharyngula/2006/12/07/pigpile-on-maciej-giertych/)
4. "Effects of
Genetic Drift" (disponível em: http://evolution.berkeley.edu/evosite/evo101/IIID2Genesdrift.shtml)
*Nota: dois dos artigos científicos citados no texto encontram-se referenciados na discussão da página da wikipédia sobre J.C.
Stanfor (a completar a página do artigo, que parece escrita por criacionistas
enviesados): http://en.wikipedia.org/wiki/Talk:John_C._Sanford
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Mais sobre evolucionismo teísta, as suas incoerências, genética de populações e criacionismo
Há uns tempos escrevi sobre as incoerências do evolucionismo teísta ("cristão"), e depois resolvi pedir a opinião de um cristão (o Daniel Pereira do "Considere a Possibilidade") sobre certos atributos de deus que pareciam apontar para tendências narcisistas. Aqui está a resposta:
«Oi, Maria!
Desculpe minha LONGA demora para responder, mas eu estava na Itália, em um lugar sem muita internet disponível, e só vi agora seu post.
O problema que você apresentou, sobre Deus ser narcisista, já me incomodou muito, até eu descobrir que ele não é sequer um problema. E tudo é bem simples.
1. O primeiro dos Dez Mandamentos é “Eu sou o Senhor, o teu Deus, que te tirou do Egito, da terra da escravidão. Não terás outros deuses além de mim.” (Êxodo 20:2-3). Ponto 1. Se Deus é justo, ele faz mandamentos justos, que podemos e devemos cumprir, pois um Ser justo jamais mandaria que realizássemos algo impossível. Ponto 2. Se Deus quer ser justo e coerente, precisa obedecer a esses mesmos mandamentos. Ponto 3. Se Ele permitir ou aceitar ou estimular a adoração, veneração ou elogios a qualquer outro deus está sendo, Ele mesmo, idólatra, injusto e incoerente. Portanto, Deus precisa adorar a Si mesmo afim de não ser idólatra, e incorrer em um dos pecados mais graves. E o fato de nos lembrar de adorá-lo é um constante chamado ao abandono do perigo da idolatria – e portanto, um ato de amor de Sua parte. Isso é bem diferente de narcisismo, porque Narciso SE JULGAVA “divino”, por assim dizer, embora não o fosse, enquanto que Deus, por ser Onisciente, SABE disso.
2. O evolucionismo teísta é bobagem, pelas razões que você apontou e porque a própria Bíblia o diz em Romanos 1:20: “…desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas CRIADAS…”. (ênfase minha). A palavra que eu enfatizei, no grego, é “poiema”, que significa algo feito com as próprias mãos. Se Deus usa morte e acaso para criar ele não é nada mais que um demiurgo brincalhão. (Além disso, lembrar que um conceito evolucionista já existia na filosofia grega à época em que Paulo escrevia, e Paulo ignora completamente o uso desse conceito na formulação dessa doutrina.) Agora, na natureza vê-se ordem, mas vê-se entropia; vê-se a beleza do nascimento, mas a feiúra da morte, o que é perfeitamente coerente com Gênesis 3 (que Paulo tinha em mente quando escreveu Romanos). O criacionismo é bem mais, eu diria, corajoso, porque fala o seguinte sem ter a menor vergonha: Deus criou um universo perfeito, que depois caiu em entropia por causa da maldição que Ele mesmo lançou no universo, e que sofreu um dilúvio de proporções bíblicas (HA! Quero ver evolucionista fazer esse trocadilho!). O que vemos no mundo de hoje, desde a seleção natural, à entropia genética e o registro fóssil, podem ser explicadas por isso. Pode não ser científico como quer Popper, uma vez que não pode ser reproduzido, nem testado, mas faz muito sentido lógico. Opa se faz. Os processos “evolutivos” (seleção natural, entropia genética etc) são explicados como uma consequência nefasta do pecado, e para eles é oferecida uma promessa de eliminação: “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.” (Apocalipse 21:4) Resumindo, Maria: o criacionista tem um modelo coerente. O evolucionista teísta não.»
O primeiro ponto pareceu-me internamente coerente - e não desmente nada do que eu disse anteriormente sobre o facto de deus querer ser notado e adorado ser incoerente com o uso do processo evolutivo. Só que não tenho a certeza de que tudo o que deus fez na Bíblia possa ser considerado justo. No segundo ponto, as objecções contra o evolucionismo teísta baseiam-se numa interpretação literal da Bíblia, que de facto, pelo menos neste caso, não me parece descabida - não vejo nenhuma metáfora na frase referida, ou qualquer sentido alternativo possível.
Ainda relativamente ao mesmo ponto, é de notar que "entropia genética" (pelo menos que eu saiba) não é nenhum termo científico, mas um termo inventado por criacionistas. Eles pensam que o facto da selecção ser menos eficaz em populações pequenas com alelos com pouco benefício selectivo é um problema para a evolução em geral, e que a proporção de mutações benéficas para mutações deletérias é também um problema, mas estas não devem ser tantas como se pode pensar à primeira vista, uma vez que grande parte das mutações vai calhar no lixo genético, também, só que não há problema nenhum, exactamente pelo que eu acabei de explicar e por outras razões (*).
* Nota: Ver mais aqui: http://letterstocreationists.wordpress.com/stan-4/, http://sandwalk.blogspot.pt/2014/04/a-creationist-tries-to-understand.html, http://newtonsbinomium.blogspot.pt/2006/10/review-of-mystery-of-genome-ii.html, http://www.genetics.org/content/190/2/295.full - Rates and Fitness Consequences of New Mutations in Humans, Peter D. Keightley1, doi: 10.1534/genetics.111.134668Genetics February 1, 2012 vol. 190no. 2 295-304, http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022519385701671 - Contamination of the genome by very slightly deleterious mutations: why have we not died 100 times over?, Alexey S. Kondrashov, Journal of Theoretical Biology - Volume 175, Issue 4, 21 August 1995, Pages 583–594. terça-feira, 26 de agosto de 2014
Deus na cosmologia moderna
"God & Cosmology" - 2014 Greer-Heard Forum
(Via
“Why evolution is true”)
Como Sean Carrol afirmou na
primeira intervenção, a hipótese de deus nem é considerada no estudo da
cosmologia (por ser vista como uma péssima hipótese, infundada, desnecessária),
ao contrário do que o público leigo pode ser induzido a acreditar. De resto,
saliento alguns aspectos importantes da discussão entre Carrol e Craig:
- Existem vários modelos do nosso
universo em que este não tem um começo e são possíveis descrições do nosso
universo como sendo eterno (com uma transição para o espaço-tempo, ou um
momento em que a entropia é a mais baixa – big bang), incluindo o do próprio
Sean Carrol, e outros que vão de menos infinito a mais infinito.
- No modelo de Hawking e Hartle –
“no boundary quantum cosmology model” – o Universo não tem um começo no tempo,
mais uma vez enfatizando que os “primeiros passos” do nosso universo não são
para ser compreendidos apenas através do senso comum (por isso, afirmações
simplistas do tipo “tudo o que começa a existir tem uma causa/ causa
transcendente” falham redondamente a abordagem – não se deve tomar nada como
garantido, incluindo que o universo começou a existir no tempo e que tem que
ter uma causa, ainda que isso assim seja), nem nada nesse modelo depende da
existência de algo fora do universo. Se é possível construir um modelo destes
do nosso universo (tendo em conta tudo o que se observa nesse universo), então
é possível que isso assim seja na realidade.
- O multiverso, previsto por
várias teorias da física explica a aparência de “fine-tunning”, portanto deus
não é necessário nem mais provável por isso.
- Com um deus que criasse um
universo “afinado” para a existência de vida, era de esperar que o universo
estivesse apenas suficientemente “afinado”, sem mais nada que não viesse a
propósito (“para quê?”, podemos perguntar-nos, “que despropositado, como se
fosse acidental…”). Não é o que observamos. O que observamos é exactamente como
se fosse algo despropositado: por exemplo, a entropia do universo jovem era
muito, muito mais baixa do que seria preciso para haver vida. Além disso, a
vida (como a conhecemos) é insignificante no todo do universo.
- Um exemplo de evidência a favor
do teísmo que mais uma vez não se verificou: Partículas e parâmetros da física
de partículas teriam algum tipo de estrutura, talvez “assinatura”, que
permitisse distinguir algo de racional, mas não têm – é tudo aleatório e uma
confusão.
- Se o deus teísta (como o da
Bíblia ou do Corão) existisse, devia haver evidências (mais ou menos óbvias)
para a existência de deus. Não há. As religiões (e experiências religiosas)
deviam, pelo menos, ter muito mais em comum e haver um código universal de
normas morais (como seria de esperar num mundo com um deus que quisesse que a
humanidade em geral obedecesse às suas leis e mandamentos). Isso não se
verifica.
- O teísmo não é algo bem definido
pelos próprios crentes, é flexível ao ponto de negarem quase tudo o que
disseram anteriormente a seu belo prazer (como seria de esperar se fosse uma
personagem inventada a partir de um conto antigo). E é assim que fogem ao
escrutínio, não havendo previsões sólidas que se possam pôr à prova – nem
evidências, o que faz com que seja uma péssima hipótese em termos científicos,
embora muito útil ao crente fervoroso. Mas se não fizessem jogo sujo, a
hipótese já estava descartada há muito.
- Por último, mas não menos
importante: “teísmo” é, muitas vezes, desculpa para parar de raciocinar/pensar.
Basta dizer que “deus fez” para explicar tudo e mais alguma e o assunto fica
resolvido.
O Craig fugiu de debater os
pontos relativos às observações que contrariam possíveis (uma vez que temos um
problema de fuga ao escrutínio) previsões do teísmo, às evidências em falta,
excepto no que toca ao assunto da entropia (ele afirma que deus podia ter feito
isso assim para ser perceptível por nós, mas isso não explica, pois de outra
maneira seria igualmente perceptível). Falha em reparar em certas nuances e
implicações da resposta de Carrol – por exemplo, relativamente ao modelo de
Hawking e Hartle, que não se deve tomar nada como garantido através de senso
comum, o que significa que a abordagem dele está errada do princípio ao fim.
Mais ainda, ignora que o universo não é, por exemplo, análogo a uma bicicleta
que se encontra no espaço e tempo deste universo, estando sujeita a leis
(regularidades) e é parte de um todo maior interactivo. Continua a reforçar a
sua ideia inicial de que os dados da cosmologia tornam a hipótese teísta mais
provável, ignorando os problemas da explicação teísta para a aparência de
fine-tunning, que não tem nada de melhor do que a alternativa, ponha-lhe ele os
defeitos que puser (especialmente se considerarmos que deus podia ter criado
vida e vida inteligente de muitas outras maneiras, e o universo de várias
outras maneiras). Outra das coisas é que o Craig acha que o multiverso não
funciona como explicação porque é muito mais provável que existam universos com
cérebros do que com pessoas... mas vários modelos de multiversos passaram o
teste probabilístico aplicado pelos físicos (pelo menos segundo Carrol, e não
tenho razões para duvidar).
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Compatibilidade entre a teoria da evolução e deus – Não faz sentido (Cont.) - Adenda
Tangencial a este assunto, é o facto de certos teólogos (e crentes no dia-a-dia) continuarem a argumentar que deus tem razões válidas para se esconder, quando os ateus apontam que sendo omnisciente e querendo que acreditem nele e o venerem, devia saber a importância de fornecer evidências da sua existência. Uma delas é que deus quer simplesmente que acreditem nele, por fé (mas isso não implica, como eu já apontei nos comentários ao texto sobre as evidências que me podiam convencer, que não deva haver evidências nenhumas, nem sequer que fornecê-las não tem de todo importância, mas que haja espaço para duvidar - ou acreditar com uma certa dose de fé, por exemplo, através de evidências de design na natureza, da radiação das várias espécies a partir da Arca/Éden, ou seja, menos "directas", que não existem - o que existe são evidências da evolução e de nada que saia fora do que é natural), outra é que se ele revelasse a sua existência sem espaço para dúvidas, por milagres, por exemplo, isso poderia tornar-nos "cegos" a outras virtudes que ele nos quisesse ensinar. Mas é claro que uma solução mais inteligente e coerente com quem quer ser venerado a todo o custo, seria ensinar essas virtudes revelando-se directamente. A resposta dos teólogos (pelo menos de um deles), é que um milagre divino não seria tão convincente, como percebermos por nós próprios. O argumento falha porque a maioria das pessoas tende mais a acreditar por milagre e não por "descobrir por eles próprios" (1) (deus devia saber isso). Parafraseando: "Tens a certeza que não está escondido debaixo de uma pedra porque nos quer ensinar a ser pacientes?"
Outro dos passatempos preferidos dos teólogos em geral, é argumentarem que os ateus não estudam os melhores argumentos para a existência de deus, o que não é verdade (pelo menos para todos), e aquilo a que eles chamam de "melhores argumentos para a existência de deus" não tentam sequer estabelecer um caso para o deus da Bíblia e da maioria dos cristãos, específicamente, mas para uma ideia panenteísta muito mais vaga de deus, que se revela de modo imprevisível, tendo mais hipótese de escapar ao crivo de possíveis testes (mas que ainda assim continua a ter características antropomórficas, embora menos), não são bem sucedidos, mas constituídos por uma série de premissas (ex.: a nossa capacidade para perceber a verdade do que nos rodeia, que pode ter sido produto da evolução por selecção natural) das quais a existência desse deus também não segue necessariamente (2). Essa noção vaga não é o que está em causa para a maioria dos crentes com quem se discute, além de que aproximadamente metade dos crentes, e já chegou a mais de metade há bem pouco tempo, são criacionistas da Terra jovem, dividindo-se o resto entre o evolucionismo teísta e o criacionismo do design inteligente nos Estados Unidos (3). De qualquer maneira, não me parece haver revelação nenhuma (previsível ou imprevisível), à excepção daquilo a que se chama “revelação pessoal”, que me parece (e não só a mim (4)) não ter nada a ver com este tipo de deus, e vindo de um deus diferente de cultura para cultura, pelo menos, como era de esperar se não houvesse deus nenhum, apenas as experiências subjectivas de cada pessoa, influenciadas pela sua tradição, ou houvessem antes vários seres/deuses a comunicar. Então, porquê acreditar? Não tenho quaisquer razões para acreditar nesse deus (ou sequer em vários, pois não poderia verificar nada), tal como não tenho razões para acreditar no deus dos criacionistas, do qual também não há evidências a favor, só contrárias, e que indicam evolução e não criação instantânea.
Ref.:
1. "Peter Van Inwagen explains why God is hidden", Jerry A. Coyne, 17/8/2012, Why evolution is true (disponível em: http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/08/17/peter-van-inwagen-explains-why-god-is-hidden/)
2. "Religious Believers' Favorite New Book Is a Failed Argument for God", Jerry A. Coyne, 16/4/2014, New Republic (disponível em: http://www.newrepublic.com/article/117393/david-bentley-harts-experience-god-isnt-must-read-atheist)
3. "Evolution, Creationism, Inteligent Design",Monday, August 18, 2014, Gallup (disponível em: http://www.gallup.com/poll/21814/evolution-creationism-intelligent-design.aspx)
4. "David Bentley Hart on God", Jerry A. Coyne, 2014/03/24, Why Evolution is True (disponível aqui: http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2014/03/24/david-bentley-hart-on-god/)
Outro dos passatempos preferidos dos teólogos em geral, é argumentarem que os ateus não estudam os melhores argumentos para a existência de deus, o que não é verdade (pelo menos para todos), e aquilo a que eles chamam de "melhores argumentos para a existência de deus" não tentam sequer estabelecer um caso para o deus da Bíblia e da maioria dos cristãos, específicamente, mas para uma ideia panenteísta muito mais vaga de deus, que se revela de modo imprevisível, tendo mais hipótese de escapar ao crivo de possíveis testes (mas que ainda assim continua a ter características antropomórficas, embora menos), não são bem sucedidos, mas constituídos por uma série de premissas (ex.: a nossa capacidade para perceber a verdade do que nos rodeia, que pode ter sido produto da evolução por selecção natural) das quais a existência desse deus também não segue necessariamente (2). Essa noção vaga não é o que está em causa para a maioria dos crentes com quem se discute, além de que aproximadamente metade dos crentes, e já chegou a mais de metade há bem pouco tempo, são criacionistas da Terra jovem, dividindo-se o resto entre o evolucionismo teísta e o criacionismo do design inteligente nos Estados Unidos (3). De qualquer maneira, não me parece haver revelação nenhuma (previsível ou imprevisível), à excepção daquilo a que se chama “revelação pessoal”, que me parece (e não só a mim (4)) não ter nada a ver com este tipo de deus, e vindo de um deus diferente de cultura para cultura, pelo menos, como era de esperar se não houvesse deus nenhum, apenas as experiências subjectivas de cada pessoa, influenciadas pela sua tradição, ou houvessem antes vários seres/deuses a comunicar. Então, porquê acreditar? Não tenho quaisquer razões para acreditar nesse deus (ou sequer em vários, pois não poderia verificar nada), tal como não tenho razões para acreditar no deus dos criacionistas, do qual também não há evidências a favor, só contrárias, e que indicam evolução e não criação instantânea.
Ref.:
1. "Peter Van Inwagen explains why God is hidden", Jerry A. Coyne, 17/8/2012, Why evolution is true (disponível em: http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/08/17/peter-van-inwagen-explains-why-god-is-hidden/)
2. "Religious Believers' Favorite New Book Is a Failed Argument for God", Jerry A. Coyne, 16/4/2014, New Republic (disponível em: http://www.newrepublic.com/article/117393/david-bentley-harts-experience-god-isnt-must-read-atheist)
3. "Evolution, Creationism, Inteligent Design",Monday, August 18, 2014, Gallup (disponível em: http://www.gallup.com/poll/21814/evolution-creationism-intelligent-design.aspx)
4. "David Bentley Hart on God", Jerry A. Coyne, 2014/03/24, Why Evolution is True (disponível aqui: http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2014/03/24/david-bentley-hart-on-god/)
Actualização (30-08-2014):
Ao que parece existe uma passagem no novo testamento em que Jesus
diz que não serão concedidos sinais aos descrentes. E aos crentes, para lhes
reforçar a fé e garantir adoração continua da sua parte? Faria sentido. Por
exemplo, revelar-se consistentemente a todos os crentes que precisassem da sua
fé reforçada (é daí que provem a maior parte dos ateus) - não vejo nada disso.
É claro que continua a ser preciso uma certa dose de fé para acreditar que foi
aquele deus especificamente. Mais ainda, essa afirmação não faz sentido à luz
do que sabemos sobre o deus do antigo testamento (*), que quer que o adorem,
precisa de ser notado. E Jesus pretende referir-se ao mesmo deus. Assim, a
explicação mais plausível, assumindo o teísmo (pois a outra seria impensável se
a ideia de deus do velho testamento fosse a correcta) é que Jesus não era seu
filho, nem divino, e isso não lhe foi revelado por deus (o que está de acordo
com a versão judaica da história). Outra é que Jesus não disse nada disso e
quem escreveu isso estava errado. É claro, que se não assumirmos nada, nem deus
existe, nem Jesus era divino nem filho de deus. Temos um problema de conflito
interno, além do conflito da caracterização do deus judaico-cristão com o uso
da evolução. É de notar ainda que com a sua falta de sinais e evidências, os
objectivos pseudo-narcisistas de deus não estariam a ser cumpridos em bastante
mais de metade da população mundial, que são hindus, budistas, taoístas,
muçulmanos, wiccans (incluindo ateus, panteístas e politeístas),
cientologistas, possivelmente alguns cabalistas, ateus, agnósticos, deístas,
outros panteístas, outras pessoas sem religião (incluindo teístas - normalmente
algo vago entre o teísmo e os deísmo, aproximando-se à visão da igreja
católica, por exemplo), até alguns que se identificam como cristãos, mas que no
máximo seriam identificados como deístas (e ateus na prática), índios, etc.
Nota:
A não ser que por "sinal" ele queira apenas dizer "milagre"
ou "revelação directa", ou que com essa frase queira apenas dizer que
tem que haver sempre espaço para a fé, que como eu já disse, não significa uma
total falta de evidências – indícios de design na natureza, que não tivessem
explicações evolutivas possíveis ou outras, por exemplo. sábado, 16 de agosto de 2014
Empatia, perspectiva evolutiva, e o défice empático dos criacionistas
Empatia é a capacidade de partilhar ou reconhecer as emoções dos
outros, e desempenha um papel fundamental na capacidade para sentir compaixão,
e é também importante distinguir que ter pena não é o mesmo que sentir empatia.
Várias regiões do cérebro estão relacionadas com esta capacidade, três delas são
a amígdala, o putamen e a ínsula (1,2).
Numa perspectiva evolutiva, a empatia é importante porque proporciona a habilidade de perceber os sinais emocionais noutros e, neste sentido, ter empatia relativamente à dor dos outros também pode ter importância adaptativa (2), o que inclui a empatia emocional, bastante primitiva, a qual seria útil, por exemplo, para perceber se algo constituía um perigo, por exemplo, um alimento (11) - a psicologia evolutiva é ainda uma ciência em embrião, pois parece-me que ainda se fica por identificar características com possível valor adaptativo (de acordo coma as observações) e especular com evidências ou dados insuficientes, mas as ideias-base são fundamentadas no conhecimento científico já estabelecido, e por isso tem potencial. Chegando a este ponto, é importante distinguir entre empatia cognitiva e afectiva ou emocional: empatia cognitiva é a capacidade de compreender a perspectiva dos outros e o seu estado psicológico (adoptar a perspectiva do outro, tendência para se identificar com personagens de ficção) e empatia emocional é a capacidade de ter uma resposta emocional adequada perante o estado psicológico dos outros (compaixão pelos outros, como resposta ao seu sofrimento, sentimentos de desconforto do próprio em resposta ao sofrimento de outros que poderá ter a ver com o desenvolvimento) (3). Um fenómeno que poderá estar relacionado é quando as crianças "captam" as emoções dos outros quando os vêem chorar (normalmente em funerais). No entanto, chorar em funerais também pode não ter nada a ver com empatia, nem com tristeza exclusivamente por certa pessoa ter morrido. Quando eu tinha 7 ou 8 anos, fiquei stressada (o que acabou em choro) num funeral, mas não pela morte da pessoa em si (eu nem a conhecia pessoalmente), e penso que também não captei dos outros (não havia quase ninguém a chorar). As pessoas à minha volta falavam na morte "aparecer" de repente, era isso que eu estava a ver, e a morte era a pior coisa para mim (na altura), eu não queria morrer, e depois pus-me a imaginar quando seriam os meus pais ou eu. Mas foi passageiro, passados poucos minutos acalmei de vez. Depois disso, já adolescente, bem como adulta, fico perfeitamente calma (e nada triste) quando me falam de mortes ou vou a funerais, mesmo quando morrem membros da minha família com quem me relaciono, e nem vendo, por exemplo, os meus primos a chorar por isso eu me sinto mal.
Existem testes que medem os dois tipos de empatia e discriminam as suas respectivas componentes, mas os questionários podem ser baseados em respostas a situações da vida real que podem não ter a ver com empatia. Eu, por exemplo, por curiosidade fiz um teste de empatia online exactamente assim. No meu caso, deu-me tudo (excepto a capacidade de adoptar perspectivas, se não estou em erro) abaixo da média em mulheres, embora o que tivesse a ver com empatia cognitiva e "personal distress", que se referia à capacidade do próprio de se sentir emocionalmente incomodado com o sofrimento dos outro estivesse mais próximo da média do que a parte dos sentimentos de compaixão. Mas a parte do incómodo emocional estava, na minha opinião, muito mal justificada. Neste teste, relacionaram isso com a resposta a emergências e situações emocionais, mas na parte das emergências, por exemplo, eu já fiquei moderadamente stressada por não saber o que fazer para me desenvencilhar da situação (uma certa desorientação de curta duração) ou por ficar frustrada (e até chateada) com a resposta por parte de outros, não por causa do sofrimento deles (aconteceu numa emergência psiquiátrica). Mas outras vezes em que nada disso se proporcionou, eu calmamente telefonei ao 112, sem qualquer desconforto psicológico. Portanto, nessa resposta, querendo ser sincera, eu não podia afirmar que ficar ansiosa não se aplicava a mim. Também não se aplica de um modo geral, mas pode acontecer, só que, normalmente, não por causa do sofrimento de outros. Provavelmente é por isso que se recomenda uma consulta com um profissional para fazer esses testes, em que se pode falar com o psicólogo ou psiquiatra que nos está a acompanhar.
Numa perspectiva evolutiva, a empatia é importante porque proporciona a habilidade de perceber os sinais emocionais noutros e, neste sentido, ter empatia relativamente à dor dos outros também pode ter importância adaptativa (2), o que inclui a empatia emocional, bastante primitiva, a qual seria útil, por exemplo, para perceber se algo constituía um perigo, por exemplo, um alimento (11) - a psicologia evolutiva é ainda uma ciência em embrião, pois parece-me que ainda se fica por identificar características com possível valor adaptativo (de acordo coma as observações) e especular com evidências ou dados insuficientes, mas as ideias-base são fundamentadas no conhecimento científico já estabelecido, e por isso tem potencial. Chegando a este ponto, é importante distinguir entre empatia cognitiva e afectiva ou emocional: empatia cognitiva é a capacidade de compreender a perspectiva dos outros e o seu estado psicológico (adoptar a perspectiva do outro, tendência para se identificar com personagens de ficção) e empatia emocional é a capacidade de ter uma resposta emocional adequada perante o estado psicológico dos outros (compaixão pelos outros, como resposta ao seu sofrimento, sentimentos de desconforto do próprio em resposta ao sofrimento de outros que poderá ter a ver com o desenvolvimento) (3). Um fenómeno que poderá estar relacionado é quando as crianças "captam" as emoções dos outros quando os vêem chorar (normalmente em funerais). No entanto, chorar em funerais também pode não ter nada a ver com empatia, nem com tristeza exclusivamente por certa pessoa ter morrido. Quando eu tinha 7 ou 8 anos, fiquei stressada (o que acabou em choro) num funeral, mas não pela morte da pessoa em si (eu nem a conhecia pessoalmente), e penso que também não captei dos outros (não havia quase ninguém a chorar). As pessoas à minha volta falavam na morte "aparecer" de repente, era isso que eu estava a ver, e a morte era a pior coisa para mim (na altura), eu não queria morrer, e depois pus-me a imaginar quando seriam os meus pais ou eu. Mas foi passageiro, passados poucos minutos acalmei de vez. Depois disso, já adolescente, bem como adulta, fico perfeitamente calma (e nada triste) quando me falam de mortes ou vou a funerais, mesmo quando morrem membros da minha família com quem me relaciono, e nem vendo, por exemplo, os meus primos a chorar por isso eu me sinto mal.
Existem testes que medem os dois tipos de empatia e discriminam as suas respectivas componentes, mas os questionários podem ser baseados em respostas a situações da vida real que podem não ter a ver com empatia. Eu, por exemplo, por curiosidade fiz um teste de empatia online exactamente assim. No meu caso, deu-me tudo (excepto a capacidade de adoptar perspectivas, se não estou em erro) abaixo da média em mulheres, embora o que tivesse a ver com empatia cognitiva e "personal distress", que se referia à capacidade do próprio de se sentir emocionalmente incomodado com o sofrimento dos outro estivesse mais próximo da média do que a parte dos sentimentos de compaixão. Mas a parte do incómodo emocional estava, na minha opinião, muito mal justificada. Neste teste, relacionaram isso com a resposta a emergências e situações emocionais, mas na parte das emergências, por exemplo, eu já fiquei moderadamente stressada por não saber o que fazer para me desenvencilhar da situação (uma certa desorientação de curta duração) ou por ficar frustrada (e até chateada) com a resposta por parte de outros, não por causa do sofrimento deles (aconteceu numa emergência psiquiátrica). Mas outras vezes em que nada disso se proporcionou, eu calmamente telefonei ao 112, sem qualquer desconforto psicológico. Portanto, nessa resposta, querendo ser sincera, eu não podia afirmar que ficar ansiosa não se aplicava a mim. Também não se aplica de um modo geral, mas pode acontecer, só que, normalmente, não por causa do sofrimento de outros. Provavelmente é por isso que se recomenda uma consulta com um profissional para fazer esses testes, em que se pode falar com o psicólogo ou psiquiatra que nos está a acompanhar.
Em termos clínicos estudos têm revelado
que o défice de empatia está associado a transtornos do espectro
autista (embora em alguns casos, o problema esteja apenas na empatia
cognitiva), incluindo síndrome de Asperger (em que estudos revelam défice de
empatia cognitiva e, em alguns casos, também um défice de empatia emocional
(4,5)), assim como a vários transtornos de personalidade: esquizotípico,
esquizóide, obsessivo-compulsivo, possivelmente a pelo menos alguns subtipos de transtorno paranóide, um subtipo de transtorno melancólico (com componentes de narcisismo) e um subtipo de transtorno negativista (com componentes de sadismo), sádico (em vez de se sentirem incomodados, sentem-se psicologicamente recompensados (13)), narcisista, psicopatia/ sociopatia (TPAS) - empatia emocional diminuída em
todos, incluindo, provavelmente, em pelo menos alguns subtipos de esquizotípicos, e em pacientes esquizoides, relativamente à compaixão/preocupação com os outros. No caso de pacientes esquizotípicos, na componente do incómodo psicológico (emocional) mostraram-se mais sensíveis num estudo realizado em estudantes universitários (6,7,8,15, 16, 18). No
caso dos pacientes com psicopatia e narcisismo (mas não no mesmo extremo), as
emoções são superficiais, as relações amorosas transitórias e não sentem a
separação e a perda quando a relação termina com a intensidade de um indivíduo
dito "normal". Os psicopatas têm défice emocional, nos casos mais
graves elevado ao extremo. Um estudo sugere que os criminosos violentos psicopatas são mais sádicos do que os não-psicopatas (14). No caso de pacientes com borderline, o problema
reside na empatia cognitiva, no entanto, perdidos nos seus próprios tornados emocionais, acabam por não se servir das suas capacidades empáticas naturais, e, quando sob pressão, a sua
instabilidade psicológica pode levar a que, na opinião de profissionais que
trabalharam com estes pacientes, se transformem temporariamente em autênticos psicopatas (9) (actualização: em pacientes com transtorno bipolar acontece algo de semelhante na fase maníaca, que pode levar a que seja confundido com narcisismo patológico(17)). Mais do que um destes transtornos de
personalidade pode coexistir na mesma pessoa, ou um paciente com um transtorno
de personalidade apresentar algumas características de outro transtorno de
personalidade (ex.: psicopatia e narcisismo; Narcisista com características
antisociais (psicopáticas); Esquizoide com características/tendências
psicopáticas). Por vezes ouço dizer que um psicopata tem défice moral, o que
poderá não estar de todo errado. Quando se chega ao ponto de sentir a dor
emocional dos outros, isso pode despoletar sentimentos de culpa, injustiça e
até de raiva, o que aponta para que a capacidade de sentir empatia para com os
outros esteja na base do comportamento moral (10), isso e a necessidade de
viver numa sociedade onde todos se roubam e matam um aos outros, que acaba por
não beneficiar ninguém. Os criacionistas (mais ainda do que outros religiosos)
não conseguem ver como pode existir moral sem deus e acham que para justificar
a existência de normas morais universais é preciso acreditar em deus. Mas isso
está errado. Basta ver a necessidade de as ter e reconhecer
uma possível origem evolutiva. E não há normas nem nada definido
universalmente. Não são precisos sequer ensinamentos religiosos (embora possam
ajudar) para não destruirmos a vida do vizinho do lado e participarmos em
acções de entreajuda - para isso basta empatia - ou mesmo o simples facto de
não se querer arranjar problemas, e a vontade de se integrar. Pergunto-me se
eles (além de não perceberem nada do assunto) não terão também um défice de
empatia, sobretudo emocional (neste aspecto não me posso gabar, só dizer que
não é necessariamente um defeito).
Agora, uma curiosidade clínica: em ambiente controlado, até psicopatas criminosos sentiram empatia (emocional) quando os orientaram para tentar imaginar como seria ser aquela pessoa (que estava a sofrer) nas imagens que eles viam, o que pode abrir caminho para a reabilitação (11,12).
Referências:
Referências:
1. J Child Psychol Psychiatry. Aug 2013; 54(8): 900–910., Mar 12, 2013. doi: 10.1111/jcpp.12063, "Empathic responsiveness in amygdala and anterior cingulate cortex in youths with psychopathic traits", Abigail A. Marsh, Elizabeth C. Finger, Katherine A. Fowler, Christopher J. Adalio,4 Ilana T.N. Jurkowitz,5 Julia C. Schechter, Daniel S. Pine, Jean Decety, and R. J. R. Blair
( disponível em:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23488588)
2. "Empathy in mice: role of amigdala, Ínsula and
anterior cingulate cortex in the modulation of nociceptive responses", Azair
Liane Matos do Canto de Souza (disponível
em: http://www.bv.fapesp.br/en/bolsas/140803/empathy-in-mice-role-of-amigdala-insula-and-anterior-cingulate-cortex-in-the-modulation-of-nocicepti/)
3. Rogers K, Dziobek I, Hassenstab J, Wolf OT,
Convit A (Apr 2007). "Who cares? Revisiting empathy
in Asperger syndrome". J Autism Dev Disord 37 (4):
709–15. doi:10.1007/s10803-006-0197-8. PMID 16906462.
4. Neurocase: The
Neural Basis of Cognition, Volume 8, Issue 3, 2002
- Empathy Deficits in Asperger Syndrome: a Cognitive Profile (Abstract)
(disponível em: http://www.tandfonline.com/doi/citedby/10.1093/neucas/8.3.245#tabModule)
5. Rogers K, Dziobek I, Hassenstab J, Wolf OT,
Convit A (Apr 2007). "Who cares? Revisiting empathy
in Asperger syndrome". J Autism Dev Disord 37 (4):
709–15. doi:10.1007/s10803-006-0197-8. PMID 16906462.
6. Differences in
Empathy Between High and Low Schizotypal College
Students, Spencer McCauley, 4-1-2013, Trinity College Digital Repository
8. "Lack of empathy in patients with narcissistic personality disorder", K. Ritter et al., Psychiatry Research 187 (2011) 241–247 (disponível em: http://www.sakkyndig.com/psykologi/artvit/ritter2011.pdf)
9. "The Borderline Personality as
Transient Sociopath", Steve Becker, March 27, 2008 (disponível
em: http://www.lovefraud.com/2008/03/27/the-borderline-personality-as-transient-sociopath/)
10. Hoffman, Martin L. (1990). "Empathy and justice
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12. "Psychopathic criminals have empathy switch", Melissa Hogenboom, BBC News, 25 July 2013 (disponível em: http://www.bbc.com/news/science-environment-23431793)
13. Decety, J., Michalska, K. J., Akitsuki, Y., & Lahey, B. B. (2009). Atypical empathic responses in adolescents with aggressive conduct disorder: A functional MRI investigation. Biological Psychology, 80, 203-211.
11. “Both of Us Disgusted in My Insula”: Mirror Neuron Theory and Emotional Empathy, Ruth Leys (Johns Hopkins University), March 18, 2012 (disponível em: http://nonsite.org/article/%E2%80%9Cboth-of-us-disgusted-in-my-insula%E2%80%9D-mirror-neuron-theory-and-emotional-empathy)
15. Millon, Theodore, "Personality Subtypes" (Institute for advanced studies in personology and psychopathology - disponível em: http://millon.net/taxonomy/summary.htm)
16. Eur Arch Psychiatry Clin Neurosci. 2013 Sep 11, "Fluid intelligence and empathy in association with personality disorder trait-scores: exploring the link", Hengartner MP, Ajdacic-Gross V, Rodgers S, Müller M, Haker H, Rössler W (disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24022591)
17. Stormberg, D., Roningstam, E., Gunderson, J., & Tohen, M. (1998) Pathological Narcissism in Bipolar Disorder Patients. Journal of Personality Disorders, 12, 179-185 (disponível aqui: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Pathological+Narcissism+in+Bipolar+Disorder+Patients.+Journal+of+Personality+Disorders)
18. "Does Obsessive-Compulsive Personality Disorder Belong Within the Obsessive-Compulsive Spectrum?", Naomi A. Fineberg et al, CNS Spectr. 2007;12(6):467-474,477-482 (disponível em: http://www.cnsspectrums.com/aspx/articledetail.aspx?articleid=1091)
Actualização - Nota: Um teste de empatia que melhor indica os níveis de empatia emocional, nomeadamente no que se relaciona com o incómodo emocional (que eu também experimentei, e confirmou as minhas suspeitas de que o nível que me deu o outro teste estava aumentado) é indicado na referência 6.
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