terça-feira, 26 de agosto de 2014

Deus na cosmologia moderna

 

"God & Cosmology" - 2014 Greer-Heard Forum



(Via “Why evolution is true”)

 

Como Sean Carrol afirmou na primeira intervenção, a hipótese de deus nem é considerada no estudo da cosmologia (por ser vista como uma péssima hipótese, infundada, desnecessária), ao contrário do que o público leigo pode ser induzido a acreditar. De resto, saliento alguns aspectos importantes da discussão entre Carrol e Craig:  

 

- Existem vários modelos do nosso universo em que este não tem um começo e são possíveis descrições do nosso universo como sendo eterno (com uma transição para o espaço-tempo, ou um momento em que a entropia é a mais baixa – big bang), incluindo o do próprio Sean Carrol, e outros que vão de menos infinito a mais infinito. 

 

- No modelo de Hawking e Hartle – “no boundary quantum cosmology model” – o Universo não tem um começo no tempo, mais uma vez enfatizando que os “primeiros passos” do nosso universo não são para ser compreendidos apenas através do senso comum (por isso, afirmações simplistas do tipo “tudo o que começa a existir tem uma causa/ causa transcendente” falham redondamente a abordagem – não se deve tomar nada como garantido, incluindo que o universo começou a existir no tempo e que tem que ter uma causa, ainda que isso assim seja), nem nada nesse modelo depende da existência de algo fora do universo. Se é possível construir um modelo destes do nosso universo (tendo em conta tudo o que se observa nesse universo), então é possível que isso assim seja na realidade. 

 

- O multiverso, previsto por várias teorias da física explica a aparência de “fine-tunning”, portanto deus não é necessário nem mais provável por isso.

 

- Com um deus que criasse um universo “afinado” para a existência de vida, era de esperar que o universo estivesse apenas suficientemente “afinado”, sem mais nada que não viesse a propósito (“para quê?”, podemos perguntar-nos, “que despropositado, como se fosse acidental…”). Não é o que observamos. O que observamos é exactamente como se fosse algo despropositado: por exemplo, a entropia do universo jovem era muito, muito mais baixa do que seria preciso para haver vida. Além disso, a vida (como a conhecemos) é insignificante no todo do universo.

 

- Um exemplo de evidência a favor do teísmo que mais uma vez não se verificou: Partículas e parâmetros da física de partículas teriam algum tipo de estrutura, talvez “assinatura”, que permitisse distinguir algo de racional, mas não têm – é tudo aleatório e uma confusão. 

 

- Se o deus teísta (como o da Bíblia ou do Corão) existisse, devia haver evidências (mais ou menos óbvias) para a existência de deus. Não há. As religiões (e experiências religiosas) deviam, pelo menos, ter muito mais em comum e haver um código universal de normas morais (como seria de esperar num mundo com um deus que quisesse que a humanidade em geral obedecesse às suas leis e mandamentos). Isso não se verifica.

 

- O teísmo não é algo bem definido pelos próprios crentes, é flexível ao ponto de negarem quase tudo o que disseram anteriormente a seu belo prazer (como seria de esperar se fosse uma personagem inventada a partir de um conto antigo). E é assim que fogem ao escrutínio, não havendo previsões sólidas que se possam pôr à prova – nem evidências, o que faz com que seja uma péssima hipótese em termos científicos, embora muito útil ao crente fervoroso. Mas se não fizessem jogo sujo, a hipótese já estava descartada há muito.   

 

- Por último, mas não menos importante: “teísmo” é, muitas vezes, desculpa para parar de raciocinar/pensar. Basta dizer que “deus fez” para explicar tudo e mais alguma e o assunto fica resolvido.

 


O Craig fugiu de debater os pontos relativos às observações que contrariam possíveis (uma vez que temos um problema de fuga ao escrutínio) previsões do teísmo, às evidências em falta, excepto no que toca ao assunto da entropia (ele afirma que deus podia ter feito isso assim para ser perceptível por nós, mas isso não explica, pois de outra maneira seria igualmente perceptível). Falha em reparar em certas nuances e implicações da resposta de Carrol – por exemplo, relativamente ao modelo de Hawking e Hartle, que não se deve tomar nada como garantido através de senso comum, o que significa que a abordagem dele está errada do princípio ao fim. Mais ainda, ignora que o universo não é, por exemplo, análogo a uma bicicleta que se encontra no espaço e tempo deste universo, estando sujeita a leis (regularidades) e é parte de um todo maior interactivo. Continua a reforçar a sua ideia inicial de que os dados da cosmologia tornam a hipótese teísta mais provável, ignorando os problemas da explicação teísta para a aparência de fine-tunning, que não tem nada de melhor do que a alternativa, ponha-lhe ele os defeitos que puser (especialmente se considerarmos que deus podia ter criado vida e vida inteligente de muitas outras maneiras, e o universo de várias outras maneiras). Outra das coisas é que o Craig acha que o multiverso não funciona como explicação porque é muito mais provável que existam universos com cérebros do que com pessoas... mas vários modelos de multiversos passaram o teste probabilístico aplicado pelos físicos (pelo menos segundo Carrol, e não tenho razões para duvidar).   

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Compatibilidade entre a teoria da evolução e deus – Não faz sentido (Cont.) - Adenda

Tangencial a este assunto, é o facto de certos teólogos (e crentes no dia-a-dia) continuarem a argumentar que deus tem razões válidas para se esconder, quando os ateus apontam que sendo omnisciente e querendo que acreditem nele e o venerem, devia saber a importância de fornecer evidências da sua existência. Uma delas é que deus quer simplesmente que acreditem nele, por fé (mas isso não implica, como eu já apontei nos comentários ao texto sobre as evidências que me podiam convencer, que não deva haver evidências nenhumas, nem sequer que fornecê-las não tem de todo importância, mas que haja espaço para duvidar - ou acreditar com uma certa dose de fé, por exemplo, através de evidências de design na natureza, da radiação das várias espécies a partir da Arca/Éden, ou seja, menos "directas", que não existem - o que existe são evidências da evolução e de nada que saia fora do que é natural), outra é que se ele revelasse a sua existência sem espaço para dúvidas, por milagres, por exemplo, isso poderia tornar-nos "cegos" a outras virtudes que ele nos quisesse ensinar. Mas é claro que uma solução mais inteligente e coerente com quem quer ser venerado a todo o custo, seria ensinar essas virtudes revelando-se directamente. A resposta dos teólogos (pelo menos de um deles), é que um milagre divino não seria tão convincente, como percebermos por nós próprios. O argumento falha porque a maioria das pessoas tende mais a acreditar por milagre e não por "descobrir por eles próprios" (1) (deus devia saber isso). Parafraseando: "Tens a certeza que não está escondido debaixo de uma pedra porque nos quer ensinar a ser pacientes?"
Outro dos passatempos preferidos dos teólogos em geral, é argumentarem que os ateus não estudam os melhores argumentos para a existência de deus, o que não é verdade (pelo menos para todos), e aquilo a que eles chamam de "melhores argumentos para a existência de deus" não tentam sequer estabelecer um caso para o deus da Bíblia e da maioria dos cristãos, específicamente, mas para uma ideia panenteísta muito mais vaga de deus, que se revela de modo imprevisível, tendo mais hipótese de escapar ao crivo de possíveis testes (mas que ainda assim continua a ter características antropomórficas, embora menos), não são bem sucedidos, mas constituídos por uma série de premissas (ex.: a nossa capacidade para perceber a verdade do que nos rodeia, que pode ter sido produto da evolução por selecção natural) das quais a existência desse deus também não segue necessariamente (2). Essa noção vaga não é o que está em causa para a maioria dos crentes com quem se discute, além de que aproximadamente metade dos crentes, e já chegou a mais de metade há bem pouco tempo, são criacionistas da Terra jovem, dividindo-se o resto entre o evolucionismo teísta e o criacionismo do design inteligente nos Estados Unidos (3). De qualquer maneira, não me parece haver revelação nenhuma (previsível ou imprevisível), à excepção daquilo a que se chama “revelação pessoal”, que me parece (e não só a mim (4)) não ter nada a ver com este tipo de deus, e vindo de um deus diferente de cultura para cultura, pelo menos, como era de esperar se não houvesse deus nenhum, apenas as experiências subjectivas de cada pessoa, influenciadas pela sua tradição, ou houvessem antes vários seres/deuses a comunicar. Então, porquê acreditar? Não tenho quaisquer razões para acreditar nesse deus (ou sequer em vários, pois não poderia verificar nada), tal como não tenho razões para acreditar no deus dos criacionistas, do qual também não há evidências a favor, só contrárias, e que indicam evolução e não criação instantânea.   

Ref.:

1. "Peter Van Inwagen explains why God is hidden", Jerry A. Coyne, 17/8/2012, Why evolution is true (disponível em: http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/08/17/peter-van-inwagen-explains-why-god-is-hidden/

2. "Religious Believers' Favorite New Book Is a Failed Argument for God", Jerry A. Coyne, 16/4/2014, New Republic (disponível em: http://www.newrepublic.com/article/117393/david-bentley-harts-experience-god-isnt-must-read-atheist)  

3. "Evolution, Creationism, Inteligent Design",Monday, August 18, 2014, Gallup (disponível em: http://www.gallup.com/poll/21814/evolution-creationism-intelligent-design.aspx)

4. "David Bentley Hart on God", Jerry A. Coyne, 2014/03/24, Why Evolution is True (disponível aqui: http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2014/03/24/david-bentley-hart-on-god/)


Actualização (30-08-2014):

Ao que parece existe uma passagem no novo testamento em que Jesus diz que não serão concedidos sinais aos descrentes. E aos crentes, para lhes reforçar a fé e garantir adoração continua da sua parte? Faria sentido. Por exemplo, revelar-se consistentemente a todos os crentes que precisassem da sua fé reforçada (é daí que provem a maior parte dos ateus) - não vejo nada disso. É claro que continua a ser preciso uma certa dose de fé para acreditar que foi aquele deus especificamente. Mais ainda, essa afirmação não faz sentido à luz do que sabemos sobre o deus do antigo testamento (*), que quer que o adorem, precisa de ser notado. E Jesus pretende referir-se ao mesmo deus. Assim, a explicação mais plausível, assumindo o teísmo (pois a outra seria impensável se a ideia de deus do velho testamento fosse a correcta) é que Jesus não era seu filho, nem divino, e isso não lhe foi revelado por deus (o que está de acordo com a versão judaica da história). Outra é que Jesus não disse nada disso e quem escreveu isso estava errado. É claro, que se não assumirmos nada, nem deus existe, nem Jesus era divino nem filho de deus. Temos um problema de conflito interno, além do conflito da caracterização do deus judaico-cristão com o uso da evolução. É de notar ainda que com a sua falta de sinais e evidências, os objectivos pseudo-narcisistas de deus não estariam a ser cumpridos em bastante mais de metade da população mundial, que são hindus, budistas, taoístas, muçulmanos, wiccans (incluindo ateus, panteístas e politeístas), cientologistas, possivelmente alguns cabalistas, ateus, agnósticos, deístas, outros panteístas, outras pessoas sem religião (incluindo teístas - normalmente algo vago entre o teísmo e os deísmo, aproximando-se à visão da igreja católica, por exemplo), até alguns que se identificam como cristãos, mas que no máximo seriam identificados como deístas (e ateus na prática), índios, etc.          
Nota: A não ser que por "sinal" ele queira apenas dizer "milagre" ou "revelação directa", ou que com essa frase queira apenas dizer que tem que haver sempre espaço para a fé, que como eu já disse, não significa uma total falta de evidências – indícios de design na natureza, que não tivessem explicações evolutivas possíveis ou outras, por exemplo. 

sábado, 16 de agosto de 2014

Empatia, perspectiva evolutiva, e o défice empático dos criacionistas

Empatia é a capacidade de partilhar ou reconhecer as emoções dos outros, e desempenha um papel fundamental na capacidade para sentir compaixão, e é também importante distinguir que ter pena não é o mesmo que sentir empatia. Várias regiões do cérebro estão relacionadas com esta capacidade, três delas são a amígdala, o putamen e a ínsula (1,2). 
Numa perspectiva evolutiva, a empatia é importante porque proporciona a habilidade de perceber os sinais emocionais noutros e, neste sentido, ter empatia relativamente à dor dos outros também pode ter importância adaptativa (2), o que inclui a empatia emocional, bastante primitiva, a qual seria útil, por exemplo, para perceber se algo constituía um perigo, por exemplo, um alimento (11) - a psicologia evolutiva é ainda uma ciência em embrião, pois parece-me que ainda se fica por identificar características com possível valor adaptativo (de acordo coma as observações) e especular com evidências ou dados insuficientes, mas as ideias-base são fundamentadas no conhecimento científico já estabelecido, e por isso tem potencial. Chegando a este ponto, é importante distinguir entre empatia cognitiva e afectiva ou emocional: empatia cognitiva é a capacidade de compreender a perspectiva dos outros e o seu estado psicológico (adoptar a perspectiva do outro, tendência para se identificar com personagens de ficção) e empatia emocional é a capacidade de ter uma resposta emocional adequada perante o estado psicológico dos outros (compaixão pelos outros, como resposta ao seu sofrimento, sentimentos de desconforto do próprio em resposta ao sofrimento de outros que poderá ter a ver com o desenvolvimento) (3). Um fenómeno que poderá estar relacionado é quando as crianças "captam" as emoções dos outros quando os vêem chorar (normalmente em funerais). No entanto, chorar em funerais também pode não ter nada a ver com empatia, nem com tristeza exclusivamente por certa pessoa ter morrido. Quando eu tinha 7 ou 8 anos, fiquei stressada (o que acabou em choro) num funeral, mas não pela morte da pessoa em si (eu nem a conhecia pessoalmente), e penso que também não captei dos outros (não havia quase ninguém a chorar). As pessoas à minha volta falavam na morte "aparecer" de repente, era isso que eu estava a ver, e a morte era a pior coisa para mim (na altura), eu não queria morrer, e depois pus-me a imaginar quando seriam os meus pais ou eu. Mas foi passageiro, passados poucos minutos acalmei de vez. Depois disso, já adolescente, bem como adulta, fico perfeitamente calma (e nada triste) quando me falam de mortes ou vou a funerais, mesmo quando morrem membros da minha família com quem me relaciono, e nem vendo, por exemplo, os meus primos a chorar por isso eu me sinto mal. 
Existem testes que medem os dois tipos de empatia e discriminam as suas respectivas componentes, mas os questionários podem ser baseados em respostas a situações da vida real que podem não ter a ver com empatia. Eu, por exemplo, por curiosidade fiz um teste de empatia online exactamente assim. No meu caso, deu-me tudo (excepto a capacidade de adoptar perspectivas, se não estou em erro) abaixo da média em mulheres, embora o que tivesse a ver com empatia cognitiva e "personal distress", que se referia à capacidade do próprio de se sentir emocionalmente incomodado com o sofrimento dos outro estivesse mais próximo da média do que a parte dos sentimentos de compaixão. Mas a parte do incómodo emocional estava, na minha opinião, muito mal justificada. Neste teste, relacionaram isso com a resposta a emergências e situações emocionais, mas na parte das emergências, por exemplo, eu já fiquei moderadamente stressada por não saber o que fazer para me desenvencilhar da situação (uma certa desorientação de curta duração) ou por ficar frustrada (e até chateada) com a resposta por parte de outros, não por causa do sofrimento deles (aconteceu numa emergência psiquiátrica). Mas outras vezes em que nada disso se proporcionou, eu calmamente telefonei ao 112, sem qualquer desconforto psicológico. Portanto, nessa resposta, querendo ser sincera, eu não podia afirmar que ficar ansiosa não se aplicava a mim. Também não se aplica de um modo geral, mas pode acontecer, só que, normalmente, não por causa do sofrimento de outros. Provavelmente é por isso que se recomenda uma consulta com um profissional para fazer esses testes, em que se pode falar com o psicólogo ou psiquiatra que nos está a acompanhar. 
Em termos clínicos estudos têm revelado que o défice de empatia está associado a transtornos do espectro autista (embora em alguns casos, o problema esteja apenas na empatia cognitiva), incluindo síndrome de Asperger (em que estudos revelam défice de empatia cognitiva e, em alguns casos, também um défice de empatia emocional (4,5)), assim como a vários transtornos de personalidade: esquizotípico, esquizóide, obsessivo-compulsivo, possivelmente a pelo menos alguns subtipos de transtorno paranóide, um subtipo de transtorno melancólico (com componentes de narcisismo) e um subtipo de transtorno negativista (com componentes de sadismo), sádico (em vez de se sentirem incomodados, sentem-se psicologicamente recompensados (13)), narcisista, psicopatia/ sociopatia (TPAS) - empatia emocional diminuída em todos, incluindo, provavelmente, em pelo menos alguns subtipos de esquizotípicos, e em pacientes esquizoides, relativamente à compaixão/preocupação com os outros. No caso de pacientes esquizotípicos, na componente do incómodo psicológico (emocional) mostraram-se mais sensíveis num estudo realizado em estudantes universitários (6,7,8,15, 16, 18). No caso dos pacientes com psicopatia e narcisismo (mas não no mesmo extremo), as emoções são superficiais, as relações amorosas transitórias e não sentem a separação e a perda quando a relação termina com a intensidade de um indivíduo dito "normal". Os psicopatas têm défice emocional, nos casos mais graves elevado ao extremo. Um estudo sugere que os criminosos violentos psicopatas são mais sádicos do que os não-psicopatas (14). No caso de pacientes com borderline, o problema reside na empatia cognitiva, no entanto, perdidos nos seus próprios tornados emocionais, acabam por não se servir das suas capacidades empáticas naturais, e, quando sob pressão, a sua instabilidade psicológica pode levar a que, na opinião de profissionais que trabalharam com estes pacientes, se transformem temporariamente em autênticos psicopatas (9) (actualização: em pacientes com transtorno bipolar acontece algo de semelhante na fase maníaca, que pode levar a que seja confundido com narcisismo patológico(17)). Mais do que um destes transtornos de personalidade pode coexistir na mesma pessoa, ou um paciente com um transtorno de personalidade apresentar algumas características de outro transtorno de personalidade (ex.: psicopatia e narcisismo; Narcisista com características antisociais (psicopáticas); Esquizoide com características/tendências psicopáticas). Por vezes ouço dizer que um psicopata tem défice moral, o que poderá não estar de todo errado. Quando se chega ao ponto de sentir a dor emocional dos outros, isso pode despoletar sentimentos de culpa, injustiça e até de raiva, o que aponta para que a capacidade de sentir empatia para com os outros esteja na base do comportamento moral (10), isso e a necessidade de viver numa sociedade onde todos se roubam e matam um aos outros, que acaba por não beneficiar ninguém. Os criacionistas (mais ainda do que outros religiosos) não conseguem ver como pode existir moral sem deus e acham que para justificar a existência de normas morais universais é preciso acreditar em deus. Mas isso está errado. Basta ver a necessidade de as ter e reconhecer uma possível origem evolutiva. E não há normas nem nada definido universalmente. Não são precisos sequer ensinamentos religiosos (embora possam ajudar) para não destruirmos a vida do vizinho do lado e participarmos em acções de entreajuda - para isso basta empatia - ou mesmo o simples facto de não se querer arranjar problemas, e a vontade de se integrar. Pergunto-me se eles (além de não perceberem nada do assunto) não terão também um défice de empatia, sobretudo emocional (neste aspecto não me posso gabar, só dizer que não é necessariamente um defeito).  
Agora, uma curiosidade clínica: em ambiente controlado, até psicopatas criminosos sentiram empatia (emocional) quando os orientaram para tentar imaginar como seria ser aquela pessoa (que estava a sofrer) nas imagens que eles viam, o que pode abrir caminho para a reabilitação (11,12). 

Referências: 

1. 
J Child Psychol Psychiatry. Aug 2013; 54(8): 900–910., Mar 12, 2013. doi: 10.1111/jcpp.12063, "Empathic responsiveness in amygdala and anterior cingulate cortex in youths with psychopathic traits", Abigail A. MarshElizabeth C. FingerKatherine A. FowlerChristopher J. Adalio,4 Ilana T.N. Jurkowitz,5 Julia C. SchechterDaniel S. PineJean Decety, and R. J. R. Blair
( disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23488588)

2. "Empathy in mice: role of amigdala, Ínsula and anterior cingulate cortex in the modulation of nociceptive responses", Azair Liane Matos do Canto de Souza (disponível em: http://www.bv.fapesp.br/en/bolsas/140803/empathy-in-mice-role-of-amigdala-insula-and-anterior-cingulate-cortex-in-the-modulation-of-nocicepti/)

3. Rogers K, Dziobek I, Hassenstab J, Wolf OT, Convit A (Apr 2007). "Who cares? Revisiting empathy in Asperger syndrome". J Autism Dev Disord 37 (4): 709–15. doi:10.1007/s10803-006-0197-8. PMID 16906462.


4. Neurocase: The Neural Basis of Cognition, Volume 8, Issue 3, 2002 - Empathy Deficits in Asperger Syndrome: a Cognitive Profile (Abstract) (disponível em: http://www.tandfonline.com/doi/citedby/10.1093/neucas/8.3.245#tabModule)   

5. Rogers K, Dziobek I, Hassenstab J, Wolf OT, Convit A (Apr 2007). "Who cares? Revisiting empathy in Asperger syndrome". J Autism Dev Disord 37 (4): 709–15. doi:10.1007/s10803-006-0197-8. PMID 16906462.

6. Differences in Empathy Between High and Low Schizotypal College Students, Spencer McCauley, 4-1-2013, Trinity College Digital Repository   

7. Hare, R. D. (1991). The Hare Psychopathy Checklist-Revised. Toronto: Multi Health Systems.

8. "Lack of empathy in patients with narcissistic personality disorder", K. Ritter et al., Psychiatry Research 187 (2011) 241–247 (disponível em: http://www.sakkyndig.com/psykologi/artvit/ritter2011.pdf)



9. "The Borderline Personality as Transient Sociopath", Steve Becker, March 27, 2008 (disponível em: http://www.lovefraud.com/2008/03/27/the-borderline-personality-as-transient-sociopath/)

10. Hoffman, Martin L. (1990). "Empathy and justice motivation". Motivation and Emotion 14 (2): 151.doi:10.1007/BF00991641


11. “Both of Us Disgusted in My Insula”: Mirror Neuron Theory and Emotional Empathy, Ruth Leys (Johns Hopkins University), March 18, 2012 (disponível em: http://nonsite.org/article/%E2%80%9Cboth-of-us-disgusted-in-my-insula%E2%80%9D-mirror-neuron-theory-and-emotional-empathy)  

12. "Psychopathic criminals have empathy switch", Melissa Hogenboom, BBC News, 25 July 2013 (disponível em: http://www.bbc.com/news/science-environment-23431793)   


13. Decety, J., Michalska, K. J., Akitsuki, Y., & Lahey, B. B. (2009). Atypical empathic responses in adolescents with aggressive conduct disorder: A functional MRI investigation. Biological Psychology, 80, 203-211.

14. Sadism and psychopathy in violent and sexually violent offenders, S. E. Holt, J. R. Meloy, S. Strack, J Am Acad Psychiatry Law. 1999; 27(1): 23–32. (resumo disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10212024)

15. Millon, Theodore, "Personality Subtypes" (Institute for advanced studies in personology and psychopathology - disponível em: http://millon.net/taxonomy/summary.htm)

16. Eur Arch Psychiatry Clin Neurosci. 2013 Sep 11, "Fluid intelligence and empathy in association with personality disorder trait-scores: exploring the link", Hengartner MP, Ajdacic-Gross V, Rodgers S, Müller M, Haker H, Rössler W (disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24022591)  

17. Stormberg, D., Roningstam, E., Gunderson, J., & Tohen, M. (1998) Pathological Narcissism in Bipolar Disorder Patients. Journal of Personality Disorders, 12, 179-185 (disponível aqui: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Pathological+Narcissism+in+Bipolar+Disorder+Patients.+Journal+of+Personality+Disorders)

18. "Does Obsessive-Compulsive Personality Disorder Belong Within the Obsessive-Compulsive Spectrum?", Naomi A. Fineberg et al, CNS Spectr. 2007;12(6):467-474,477-482 (disponível em: http://www.cnsspectrums.com/aspx/articledetail.aspx?articleid=1091)

Actualização - Nota: Um teste de empatia que melhor indica os níveis de empatia emocional, nomeadamente no que se relaciona com o incómodo emocional (que eu também experimentei, e confirmou as minhas suspeitas de que o nível que me deu o outro teste estava aumentado) é indicado na referência 6.





  

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Outra vez o ENCODE (e o "código")

Os criacionistas não largam os resultados do ENCODE, nem com tudo o saiu depois sobre esse assunto a assegurar que nada estava garantido. No "Darwinismo", o Mats (e os criacionistas do Discovery Institute que ele cita (1))  continua a teimar nesses resultados e que os cientistas em geral não os aceitam porque, sobretudo, são "evolucionistas". Eu indiquei, então, que nada estava garantido, que a definição estava no mínimo incompleta à luz da bioquímica e era inútil, apontei um artigo e um texto meu sobre o assunto, ao que um criacionista respondeu, com uma carga de arrogância (que não tem qualquer razão de ser, porque não passa de um ignorante). Claro que uma das coisas com que ele se distraiu do fundamental foi, claro, o "código". Algumas citações e as minhas observações (2):  
«Que isso? (sic) Entretenimento … Science up Comedy ?» Vindo de uma pessoa que nunca deve ter tido uma aula de biologia na faculdade... ou de qualquer outra coisa, já agora.  
«É verdade não HÁ CÓDIGO (...) O que o wiki diz sobre codigo genético? (...)» - Sabe perfeitamente o que eu quero dizer. Não faz sentido dizer que que é um código (não no sentido de precisar de inteligência. Um código a sério é o código Morse, por exemplo, que precisa de inteligência para ser interpretado) porque não há ninguém (ninguém inteligente) para estabelecer semântica a meio do processo que ocorre na célula. São só reacções químicas (e eu já expliquei isto antes, de várias formas). E em vez de ler a parte mais importante para o tema, perde-se em pormenores pouco relevantes.
«Uma maneira de inferir funcionalidade generalizada, apesar de não se ter conhecimento da função precisa, é notar que todo o genoma, ao contrário do pressuposto darwinista, está sujeito a várias camadas de reparo do DNA (ou seja, por que o celular tão ciosamente protege tanto lixo, peso morto?)» - A cometer o mesmo erro do ENCODE. Lá por ocorrerem certas reacções de reparação não quer dizer sequer que essa parte do DNA é transcrito, quanto mais que produz algo importante para o organismo.

Actualização: os criacionistas contra-atacam. 

Estava à espera de mais uma dose de ignorância e má vontade, e mais uma vez o observado corresponde ao esperado.
Do Mats (com as minhas observações):
«A replicação genética só é possível porque há inteligência embutida no ADN que permite o corpo biológico interpretar o significado do original e fazer uma cópia idêntica.» – Não há inteligência nenhuma embutida no DNA, o que há é uma série de reacções a partir do DNA, conforme a sequência de bases (que não tem obrigatoriamente uma origem inteligente.
«Além disso, o Projecto ENCODE é uma evidência óbvia que é preciso inteligência para entender o significado e a função das bases nitrogenadas (Adenina, Guanina, Citosina, Timina).» Se quer encontrar um paralelo, está a confundir alhos com bugalhos. Confunde a necessidade de inteligência para atribuir o significado (e para depois o interpretar, claro) para haver um código (como decidir que dois sinais, de luzes, por exemplo, com um sinal curto pelo meio significa SOS), com inteligência para compreender que certa cadeia de reacções dá um certo produto consoante a sequência de bases da molécula de onde parte.
«Mas a semântica é determinada ANTES da célula estar criada, por isso, o teu argumento é inválido.» «Não faz sentido dizer que é um código porque não há ninguém (ninguém inteligente) para estabelecer semântica a meio do processo que ocorre na célula.» – Devia ter dito “interpretar”, em vez de “estabelecer semântica”. E está certo, não dá para dizer que é um código da mesma maneira que o código Morse que precisa disso é um código (num sentido mais lato, talvez sim, talvez não). E é um código como o código Morse (ou até uma correspondência entre números e letras que se invente, por exemplo) que precisa (obrigatoriamente) de inteligência para existir e ser interpretado. De qualquer maneira se não fosse a má vontade do costume, teria dado para perceber no contexto. O sentido do código Morse também é estabelecido antes de qualquer interpretação. Mas não tem nada a ver uma coisa com a outra. De qualquer maneira toda esta questão do código ocupa tempo e espaço, mas não serve de nada. Sendo um código (num sentido lato), ou não, não interessa. Há imensos estudos sobre as origens que indicam que a primeira célula teve origem natural, e até o código genético.

O comentário que se seguiu (do Mats) demonstrou mais uma vez uma falta de compreensão sobre praticamente tudo o que lhe expliquei. Pode ser visto no "Darwinismo". A minha resposta: «”Se quer encontrar um paralelo,está a confundir alhos com bugalhos. Confunde a necessidade de inteligência para atribuir o significado” – Não se está a atribuir significado nenhum mas sim a usar termos humanos para entender uma linguagem biológica. Lembra-te: traduzir não é inventar significado.» Era por isso mesmo que lhe estava a dizer que não há paralelo. Quanto ao resto do seu comentário, parece-me que não percebeu (ou não quis perceber) nada do que lhe expliquei.
«Infelizmente, nenhum deles sobrevive ao escrutínio científico.» Aventar (ou inventar) sem indicar referências fiáveis - leia-se artigos com revisão de pares, não altera nada - os artigos, com as evidências e os processos propostos continuam lá. 
Esta conversa do código está já estafada, e é até bastante entediante (e algo frustrante) ao fim de algum tempo, pelo que fico por aqui.    

Do Jeph (o criacionista do costume):
«Pois é, eu sou um ignorante com a oportunidade de não ser arrogante e absorver muito informação sobre biologia de sistemas, genética, biomimética e etc…» Finalmente acertou em alguma coisa.
«E eu também por considerar o cérebro um design incrível, fico lendo sobre o cérebro e não é que eu descobri que a inteligência humana não pode ser explicada pelo tamanho do lobo frontal do cérebro?» Parabéns... Quer um prémio?
«ENCODE mediu a atividade biológica real. A diferença entre ENCODE e o estudo de Oxford é o fracasso de uma predição darwinista, não uma falha do ENCODE.» Apenas repete o que lê em sites criacionistas (sem bases para sequer perceber os argumentos pró e contra).
«“Não faz sentido dizer que é um código porque não há ninguém (ninguém inteligente) para estabelecer semântica a meio do processo que ocorre na célula. São só reacções químicas (e eu já expliquei isto antes, de várias formas)”» (voltou a citar a Wiki) - Para clarificação leia o meu comentário acima.

Ref.:

1. «Junk DNA: Darwinists Say They Are "Largely Free from Assumptions or Hypotheses"»,
Jonathan Wells July 30, 2014 (EnV, disponível em: http://www.evolutionnews.org/2014/07/junk_dna_darwin088361.html)


2. «Só 8,2% do cérebro dos evolucionistas é funcional», 05/08/2014, Mats ("Darwinismo", disponível em: http://darwinismo.wordpress.com/2014/08/05/10854/) - comentários   


sábado, 9 de agosto de 2014

Compatibilidade entre a teoria da evolução e deus – Não faz sentido (Cont.)

A parte do desejo de deus de ser venerado e notado (basta pesquisar sobre a Bíblia ou directamente na própria Bíblia) e de isso ser inconsistente com o uso de processos naturais para criar vida (relativamente a qualquer deus que queira ser venerado, não só o deus cristão passa despercebida aos que abordam um assunto em geral, pelo que me é dado a conhecer. Por exemplo, num longo (e algo entediante) texto (1), a autora Greta Christina, comenta o tema do evolucionismo teísta e do design inteligente (versão Michael Behe), que têm bastante em comum, só que os evolucionistas teístas convencionais afirmam que não se pode distinguir a acção divina, escapando ao teste – mas devia haver evidências para ser coerente com o deus em causa. Ela aborda o problema da crueldade no processo evolutivo (se foi deus a utilizá-lo), aborda o mais óbvio, que é a falta de evidências – em ciência, sem evidências, não temos como aceitar uma hipótese, mas passa ao lado do mais importante: devia haver evidências se deus quer ser venerado e notado, e usar o processo evolutivo natural não é uma boa forma de o conseguir – e não há, de facto, evidências. Deus (o deus cristão, neste caso, e possivelmente a versão muçulmana, Alá), é uma personagem que parece forçar-se a ser “boa” e justa, ou por dar essa aparência (mais provavelmente esta última) – o que também não é compatível com o rasto de destruição bem perceptível do processo evolutivo. No entanto, as tendências narcisistas são evidentes e precisa de ser adorado, venerado, e notado (enviou o seu filho e revelou-se ao longo da Bíblia, ou seja, assim crêem os cristãos). Para quê usar este processo que é tudo menos notável, e não deixa evidências? Segundo os cristãos, nos tempos bíblicos não era assim tão tímido, pois não? Não faz sentido, não é coerente com o deus da Bíblia, nem seria inteligente. Nem faz sentido as pessoas não repararem nisto.
Para terminar: «Claims that a god operates in the natural world (...) lack evidence in support. They make no predictions. They guide no hypotheses. They add nothing to any explanations of the natural world. They are contradicted by an absence of evidence.», P.Z. Myers (Pharyngula


Ref.:        


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Mais baboseiras do William Dembski

Num texto já antigo (2005) no "Uncommon descent"(1), o William Dembski responde a um dos seus muitos críticos, o biólogo H. Allen Orr, da seguinte forma:
«Orr tries to get around the force of displacement by remarking that the NFL theorems don’t hold in the case of co-evolution (fitness landscapes that vary over time as organisms/population agents evolve). Actually, I dealt with co-evolution in section 4.10 of my book No Free Lunch (...). In his 2002 Boston Review critique of that book, Orr claimed that I hadn’t even addressed the issue of co-evolution when I had devoted a whole section to it. (...) the No Free Lunch theorem that I prove in my paper “Searching Large Spaces” does in fact hold for co-evolutionary scenarios, as does the displacement theorem that I prove there.» Será? Aquilo que o William Dembski diz não é de levar a sério, pela experiencia em casos anteriores (filtro para inferir design é um exemplo), mas não tendo encontrado nada sobre o assunto, deixo passar. Mais: «Orr now has a long history of suggesting that co-evolution is a magic bullet for evolving biological complexity. (...) What’s more, when we look to evolutionary algorithms within computer science, we find an interesting disanalogy with what Orr is hoping evolutionary processes can accomplish in actual living systems. Within evolutionary computing, fitness can change with time as circumstances change and more information becomes available. Accordingly, the objective function can, as it were, hop around. But (...) the objectve itself does not hop around. Orr is asking us to believe that co-evolution can work effectively by changing objectives (...), but we have no parallel to this in the field of evolutionary computing.» Não há paralelo a uma solução proposta, perfeitamente plausível no mundo real, em modelação computacional (evolutiva), e não há paralelo plausível no mundo real para um designer. Em que é que ficamos? É claro que um criacionista diria que isso não é problema porque se pode inferir design sem conhecer o designer. E eu gostava de saber, então, de (novas) propostas para inferir design. Para além do mais, acho que isso é fazer batota. Para o design ser pelo menos plausível, tem que haver um possível, e plausível designer. Os cristãos diriam: "deus" (bem, provavelmente gritariam histericamente: "Deus!!! Com D maiúsculo!"). Mas o problema é apenas este: evidências que deviam aparecer (deus quer ser adorado e tem traços de personalidade narcisista) e não aparecem. Hum... porque será?
Não há nada que torne a existência de deus mais plausível. E se for outro deus qualquer? Bem, a tradição hindu tem uma espécie de deus supremo, mas é panteísta, e os outros "deuses" são apenas espíritos através dos quais os hindus se relacionam com o seu deus (que não parece estar dissociado da natureza, ou pelo menos não é um deus pessoal) e, mais uma vez, zero evidências de que existem. E o deus do Islão, Alá? Evidências, nem pensar, já para não falar de que este método de andar a criar aos bocadinhos não é coerente com o que diz a Bíblia ou o Corão, nem com as crenças Hindus. Podem apelar à metáfora, mas quais as partes que são metáfora, então? Quanto muito é no mínimo subjectivo - "a criação divina em si não é metáfora, mas os seis dias de criação instantânea são" simplesmente não pega.  Provavelmente até foi uma história que alguém inventou para satisfazer a curiosidade dos mais novos, na qual passaram a acreditar, mas parece tudo menos uma metáfora ou alegoria para a criação divina do universo, pelo menos no sentido que certos teólogos e católicos pretendem. Um deus que quer ser venerado não podia arranjar uma maneira de se revelar, e de espalhar a sua palavra que gerasse menos confusão para se fazer acreditar? Sim, deus, pode brincar connosco, mas para quê? Para deixar de ser venerado mal a ciência entre em acção? Pouco inteligente para um designer inteligente, que criou o homem (inteligente, com capacidade para distinguir o "certo" do "errado", etc.) à sua imagem e semelhança.
Voltando ao William Dembski, penso que ele quer dizer que a ideia de Orr não é testável em termos de modelação, mas uma mera possibilidade. Mas se tivermos que escolher entre isso e um designer muito pouco plausível na realidade, devemos ficar com a primeira hipótese, não a tendo como garantida. Além disso, observando atentamente as estruturas que têm sido propostas pelos criacionistas versão design inteligente, os cientistas concluíram que não havia nada que não fosse de esperar pelos processos evolutivos moleculares do costume (partes cooptadas, partes semelhantes, isto é, duplicadas, etc.)  ainda que não se tenha uma descrição mutação a mutação com o respectivo valor selectivo. Pergunto-me se alguma destas observações tão óbvias trará alguma dissonância cognitiva ao Dembski. Talvez tenha aprendido a ignorá-las. Numa só frase: Muita treta vai na cabeça de muitos cristãos, incluindo e sobretudo na do William Dembski.      

Ref.:

1. Allen Orr in the New Yorker - A Response, 28/5/2005, William A. Dembski (Disponível em: http://www.uncommondescent.com/evolution/allen-orr-in-the-new-yorker-a-brief-response/

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Evolução, design e biologia dos sistemas

Em biologia (especialmente biologia dos sistemas, tende-se a usar linguagem associada a design humano e propósito para descrever processos e observações, porque os cientistas estão saturados com informação sobre os mecanismos da acção e interacção de genes (e seus produtos), e precisam de se organizar de alguma maneira. Uma forma fácil é ver as coisas desta maneira: "para que serve isto tudo?" Assim, surge a biologia dos sistemas (que inclui bioinformática e biologia computacional). Mas isso é apenas uma maneira de lidar com o problema, não quer dizer que exista propósito verdadeiro (que precise de um programador/designer inteligente). Aliás, a teoria da evolução (por selecção natural) ajuda os cientistas que trabalham em biologia dos sistemas a saber porque é que "isto serve para aquilo, aquilo serve para o outro" (1). Um exemplo de um cientista que trabalha dessa maneira é o Dr. Arthur Lander (M.D., Ph.D.) da Universidade da Califórnia-Irvine. Segundo o Dr. Lander (2): 
- Há selecção de sistemas mais robustos (a perturbações genéticas e do ambiente) e não de genes individualmente;
- Epistase como efeito da selecção natural, que promove melhor uma resposta a perturbações individuais do que a perturbações combinatórias – previsão: quanto mais robustos, mais epistáticos (previsão cumprida).
- Em termos de frequência alélica: simulações mostram que alelos fracos em termos combinatórios não são facilmente eliminados de uma populações, tendendo a estabilizar numa frequência reduzida.

Agora, há quem diga (criacionistas, claro) que o design inteligente é a hipótese mais compatível com o paradigma actual da biologia dos sistemas (3). Isso está errado. Não só a teoria da evolução (por selecção natural) não tem nada de incompatível com o que se pensa e estuda em biologia dos sistemas (como pode, então, algo ser mais compatível?), como a hipótese do design inteligente não tem evidências que a apoiem, nem ajuda em nada - "o designer quis, assim foi." E não tem que ser tudo mau se não for projectado. Além de que a previsão da teoria da selecção natural foi cumprida e é útil. Os criacionistas (bem como os menos informados) precisam de expandir horizontes. Não é porque teve uma origem natural (neste caso, evolução) que tem que funcionar mal ou não muito bem. Aliás, vemos através do trabalho deste cientista, que trabalha no próprio campo (e de outros) que a teoria evolutiva é a mais útil, a melhor. 

Referências:

1. Lander, AD (2004), "A Calculus of Purpose". PLoS Biol 2(6): e164. doi:10.1371/journal.pbio.0020164 (disponível em: http://www.plosbiology.org/article/info:doi/10.1371/journal.pbio.0020164
2. Arthur D. Lander, M.D., Ph.D., University of California-Irvine: "Control, Constraint and Order in Biology: Examples from Development and Disease", UAB Comprehensive Cancer Center Systems Biomedicine Symposium, May 9, 2013 (apresentação disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=yqoPJ7-2YRo#!)
3. Snoke, David, "Systems Biology as a Research Program for Intelligent Design" (disponível aqui: http://bio-complexity.org/ojs/index.php/main/article/view/BIO-C.2014.3/BIO-C.2014.3) (via "Darwinismo").