sábado, 19 de outubro de 2013

Rótulos: deixem as crianças crescer e escolher por elas próprias

Uma pessoa adulta escolhe uma religião de acordo com as suas crenças, provenientes da sua avaliação das várias hipóteses que lhe são apresentadas relativamente ao que os rodeia. Uma criança não tem capacidade de avaliar essas hipóteses. As pessoas adultas podem escolher a hipótese da ressurreição de Jesus, podem acreditar em deus, etc. Isto tudo são exemplos de avaliações incorrectas das hipóteses propostas, mas não indica necessariamente um limite devido ao seu estádio de desenvolvimento intelectual, como no caso das crianças, que torna improvável que uma criança faça uma avaliação correcta das hipóteses que lhe são apresentadas, devido ao facto das crianças terem dificuldade em entender e assimilar certos conceitos, como a selecção natural, as mutações e até mesmo a ressurreição e esse tipo de coisas. Até mesmo o conceito de “fé” ou “evidência” pode ser difícil para uma criança. É claro que á medida que a idade vai avançando uma criança vai começando a superar esse tipo de dificuldades a aprender conceitos-base como “evidência histórica”, “fé” (crença sem evidências), etc. Uma criança entre os 11 e os 12 anos está mais ou menos pronta para começar a analisar certas opções, como “acreditar porque a, b ou c confirmam a hipótese” ou “não acreditar porque a, b ou c não confirmam a hipótese”. Por exemplo, com essa idade eu escolhi a hipótese “deus não ouve orações” porque “ninguém respondia nem fazia nada”. Escolhi o “lado” do meu professor de história relativamente á ressurreição de Jesus (“ninguém ressuscitou”) e não o da minha melhor amiga porque ela não tinha evidências disso, sendo algo em que as pessoas acreditavam por fé.

É com a capacidade de apreender certos conceitos que uma criança vai começando a pensar por si própria e a acreditar ou não em certas coisas. Portanto deixem as crianças crescer para poderem escolher a sua religião ou não escolher nenhuma. Não lhes atribuam rótulos que não fazem sentido. 



Ref.:

- Hey, preacher – leave those kids alone, Ariane Sherine, 18 November 2009 – The Guardian (disponível aqui: http://www.theguardian.com/commentisfree/belief/2009/nov/18/atheist-bus-campaign) (Imagem)

Fósseis de bactérias com mais de 3,4 mil milhões de anos

Uma equipe de cientistas da Austrália e do Reino Unido divulgou em 2011, um estudo que revela a descoberta do que pode ser a forma de vida mais antiga da Terra. Segundo o artigo, publicado na revista Nature Geoscience, fósseis microscópicos com mais de 3,4 mil milhões de anos de antiguidade foram encontrado no noroeste da Austrália.
A pesquisa, realizada em conjunto entre a Universidade da Austrália Ocidental e a Universidade de Oxford (Reino Unido), foi realizada na região de Strelley Pool, Pilbara.
Estes fósseis, descobertos em bom estado de conservação numa rocha sedimentar, pertencem a bactérias que precisam de compostos á base de enxofre para subsistir, como afirmou David Wacey, da Universidade da Austrália Ocidental, em declarações ao “Sydney Morning Herald”.
Os investigadores demonstraram que estes microrganismos sobreviveram graças a compostos á base de enxofre neste período da Terra em que o oxigénio era pouco e predominavam as altas temperaturas. "A hipótese de sobreviver à base de sulfureto era uma característica que se pensava que existisse num dos primeiros períodos da Terra, especificamente durante a transição de um mundo não-biológico para um biológico", acrescentou o cientista.
O professor da Universidade de Oxford Martin Brasier expressou que a descoberta dos fósseis confirma que há 3,4 bilhões de anos existiam bactérias na Terra. "Podemos estar muito certos da antiguidade (dos fósseis) porque as rochas formaram-se entre duas sucessões vulcânicas, que diminuem o intervalo no cálculo da idade” explicou Brasier. O investigador britânico também destacou que bactérias semelhantes são "comuns hoje em dia" e são encontradas em fontes de águas termais ou outros lugares com pouco oxigénio.

Referências:

-          Oldest Fossils On Earth Discovered, Aug. 22, 2011  – Science Daily (disponível aqui: http://www.sciencedaily.com/releases/2011/08/110821205241.htm)

-          New Pilbara find fuels debate on earliest life, Deborah Smith, August 22, 2011 – Sydney Morning Herald (disponível aqui: http://www.smh.com.au/technology/sci-tech/new-pilbara-find-fuels-debate-on-earliest-life-20110822-1j5qv.html)


-          Microfossils of sulphur-metabolizing cells in 3.4-billion-year-old rocks of Western Australia, David Wacey, Matt R. Kilburn, Martin Saunders, John Cliff, Martin D. Brasier - Nature Geoscience, 2011; DOI: 10.1038/ngeo1238 (resumo disponível aqui: http://www.nature.com/ngeo/journal/v4/n10/full/ngeo1238.html

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Previsões da Teoria da Evolução vs (não-) previsões do criacionismo (Adenda)

Os criacionistas do D.I. normalmente alegam que os seus argumentos não são apenas negativos (c.). Isto é verdade até certo ponto, pois estes alegam que a complexidade especificada (ou CSI) e a complexidade irredutível são indícios de acção inteligente, procurando deste modo apresentar um argumento positivo para a hipótese deles (se encontrarmos X, então Y), mas para fazerem essa afirmação de que CSI e sistemas irredutivelmente complexos são indícios de design, já tiveram que passar pela fase em que afirmam que a evolução não pode ser responsável por isso nem quaisquer processos naturais conhecidos, sendo estas características exemplificadas por produtos da acção humana – daí CSI e complexidade irredutivel serem bons indicadores de design inteligente. Deste modo os argumentos dos criacionistas do design inteligente dependem de uma negativa.
O pior (para os criacionistas) é que os sistemas e estruturas propostos por estes já foram estudados (como eu já referi anteriormente) e de facto evoluíram - apresentavam evidências claras de um sistema que evoluiu por mutações aleatórias e selecção natural. e é bom relembrar que o William Dembski não fez o teste que ele próprio propôs relativo às probabilidades de uma certa adaptação evoluir pelos processos conhecidos (tentou fazer isso com o flagelo bacteriano, mas foi mal sucedido).


Notas:

c. – também pode ser conferido no Evolution News and Views (aqui: http://www.evolutionnews.org/2013/08/what_is_the_the075281.html

domingo, 13 de outubro de 2013

(Des)complicando a ciência (parte II)

Semelhanças e diferenças: sequência vs função vs morfologia

Como já tenho dito anteriormente, não é obrigatória a mesma sequência (genética ou de aminoácidos numa proteína) para que uma função semelhante seja desempenhada. Algumas pessoas podem ver isto desta maneira: quando têm a mesma sequência e a mesma função, isso é produto da evolução, mas quando o contrário acontece, também é produto da evolução. Assim, a teoria acomoda dois cenários mutuamente exclusivos.
Uma explicação muito simples é que não são mutuamente exclusivos e não há nada de errado relativamente á teoria da evolução: esta não prevê nem um nem outro na generalidade, mas nenhum entra em choque com a teoria, sendo que o facto de não ser necessária a semelhança sequencial para funções semelhantes é favorável ao uso da evidência molecular como apoio.
Muitos críticos religiosos da teoria da evolução têm afirmado que no que respeita á morfologia, ao nível genético as semelhanças morfológicas não seguem - genes idênticos codificam estruturas distintas, e estruturas idênticas são codificadas por genes distintos. Mesmo se isso corresponder á realidade, não têm que seguir. A parte molecular pode ser preservada semelhante, mas mudarem as estruturas e os genes sofrem mutações, portanto é normal que passem a originar estruturas diferentes ao longo do tempo. 

Padrão genealógico e fósseis de transição

A teoria da evolução é evidenciada pelo padrão genealógico total incluindo os fósseis, dos quais se destacam os fosseis de transição. Mas os criacionistas usam e abusam de apresentar citações fora do contexto (“quote mining”) e depois enganam os crédulos e um exemplo disso é espalharem pelo mundo fora (através da internet) que o Dr. Colin Patterson do Museu Britânico afirmou que não existem fósseis de transição. Isso é uma mentira que os criacionistas andam a espalhar desde os anos 80. Os fósseis aos quais se referia o Dr. Patterson eram os ancestrais directos e não os fósseis de transição (1).
Para mim foi difícil de acreditar quando li a data em que expressão que os criacionistas costumam citar foi redigida (numa carta), pois actualmente esta ainda é usada pelos criacionistas e originalmente foi escrita em Abril de 1979 e depois começou a “circular”, sobretudo através de uma compilação de citações fora do contexto redigida por criacionistas que foi publicada nos anos 80 e mais tarde em 1990.


Referências:

  1. «Patterson Misquoted», Lionel Theunissen, 1997 (disponível aqui: http://www.talkorigins.org/faqs/patterson.html) *

 *Nota: Pode ser visualizada uma digitalização da carta original do Dr. Colin Patterson, assinada pelo mesmo, a clarificar o ocorrido através do endereço da referência. 

sábado, 12 de outubro de 2013

Previsões da Teoria da Evolução vs (não-) previsões do criacionismo

Os cientistas estudaram as origens de certas estruturas biológicas (incluindo as propostas pelos criacionistas do D.I.) e descobriram que estas evoluíram via mutações e selecção. Não foram encontradas quaisquer evidências de design inteligente quando os cientistas aprofundaram o assunto, mas sim as marcas de um processo evolutivo cheio de duplicações genéticas e intra-genéticas (por exemplo, no caso da ATPSintase (1, 2)), exaptação e mutações pontuais que ocorreram aleatoriamente, em tudo semelhantes às que se vêem ocorrer actualmente (inclusivamente em laboratório).  Michael Behe por exemplo, propôs que um deus/designer tem que ter feito certos conjuntos de mutações que na sua opinião não podiam ter ocorrido naturalmente, isto é, esse deus é estritamente necessário para explicar as observações. No entanto os cientistas refutaram isso recorrendo à teoria neutra.
Pensando um pouco, pode-se perceber que a hipótese do design inteligente não explica nada (como já referi anteriormente). Não explica o padrão de semelhanças e diferenças que vemos nos seres vivos nem entre os genes dentro do mesmo ser vivo, nem sequer explica como o designer concebeu as estruturas em questão. Por outro lado a teoria da evolução explica isso tudo (menos a parte do designer, porque este não entra em cena) e faz previsões acerca do assunto. Por exemplo, a evolução só "trabalha" com o que lá está, pelo que era de prever que muitas das proteínas fossem semelhantes entre si, incluindo proteínas derivadas do mesmo genoma (com os genes também semelhantes). Os criacionistas do design inteligente deviam ter pelo menos tentado propor uma previsão (que permita fazer uma distinção) relativamente a isso para ser testada. A única previsão séria da qual eu tenho conhecimento é que a maioria do genoma humano seria funcional (benéfico para o sucesso reprodutivo do organismo). E essa também não se aguentou. Só o facto de tolerarmos a enorme carga de mutações que ocorre de geração para geração é uma evidência de que há lixo no genoma.
Agora parece que o pessoal do Discovery Institute quer começar a fugir ao escrutínio dando a entender que não se pode distinguir se as semelhanças moleculares são devidas ao design ou à ancestralidade comum e que não podemos dizer que não foi deus que fez as mutações, porque não conseguimos distinguir uma hipótese da outra (b). Mais uma vez: aquilo que não se pode testar vai para o lixo. E mais uma vez: passámos de “não pode ter evoluído” para “imita processos naturais, por isso não pode ser desmentido”.

Notas:
  1. Eu sei que nalgumas partes repito coisas que já disse noutros textos, mas isso serviu para contextualizar. O importante é o leitor focar-se nas previsões da teoria da teoria da evolução e nas previsões que os criacionistas do D.I. fizeram e não fizeram.
  2.  Pode ser conferido no “Evolution News and Views” (aqui: http://www.evolutionnews.org/2011/06/following_the_evidence_where_i047161.html e aqui: http://www.evolutionnews.org/2011/03/science_article_acknowledges_c045221.html)

Referências:

1. Zh Evol Biokhim Fiziol. 2007 Sep-Oct;43(5):391-7. - Evolutonary modifications of molecular structure of ATP-synthase gamma-subunit, Ponomarenko SV. (disponível aqui: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18038634)
2. Gene. 2006 Apr 26;371(2):224-33. Epub 2006 Feb 7. - Evolution of ATP synthase subunit c and cytochrome c gene families in selected Metazoan classes, De Grassi, A., Saccone, C. et al.

Predação selectiva das borboletas Biston betularia escuras

Lembro-me de me ter sido apresentado no secundário como exemplo da acção da selecção natural o caso das borboletas escuras que suplantaram as claras e depois o oposto, devido á predação por pássaros e á camuflagem que uma cor ou outra lhes conferia (quem não se lembra?). Encontrei um artigo bastante interessante sobre o assunto, com o título «Selective bird predation on the peppered moth: the last experiment of Michael Majerus». A variação de cores nas borboletas Biston betularia tem sido aceite estar sob forte selecção natural. Pensa-se que as escuras eram mais aptas do que as claras por causa da baixa predação nos locais de descanso durante o dia, isto é, nas cascas dos troncos das árvores cheias de fuligem. Estas tornaram-se comuns durante a revolução industrial, mas desde 1970 houve uma reversão rápida, assumindo-se ter sido causada por predadores que caçavam as escura que descansavam na casca com menos fuligem de hoje em dia.
De acordo com os autores do artigo, experiências e observações foram devidamente realizadas por Michael Majerus para resolver as deficiências dos trabalhos anteriores. Majerus libertou 4864 traças na sua experiência de seis anos e observou que houve uma forte predação diferencial por pássaros contra borboletas escuras. A selecção diária contra estas (s 0,1) foi suficiente em magnitude e direcção para explicar o recente declínio rápido das borboletas escuras na Grã-Bretanha pós- industrial (1).

Encontrei também uma revisão do livro «Icons of Evolution», elaborada pelo Dr. Nick Matzke da Universidade da Califórnia, Berkley. Por incrível que pareça nem numa coisa tão simples o criacionista Jonathan Wells, autor do livro, acertou. Este quis implicar que as borboletas estarem a descansar em ramos ou em troncos deita por terra as conclusões principais dos cientistas sobre o assunto. (2) Talvez deitasse se os pássaros estivessem de algum modo proibidos de caçar nos ramos das árvores. Ou o Jonathan Wells é muito burro ou então bateu com a cabeça num ramo de uma árvore pela altura em que decidiu escrever sobre o assunto (eu aposto na segunda hipótese).

Referências:



2. «Icon of Obfuscation: Jonathan Wells's book Icons of Evolution and why most of what it teaches about evolution is wrong», Nick Matzke, 2002 (actualizado em 2004) (disponível aqui: http://www.talkorigins.org/faqs/wells/iconob.html#mothbranch

(Des)complicando a ciência


Selecção de dados: há razões para isso?

Muito falam os criacionistas (na internet são uma praga (a.)) de filtrar dados quando se trata de estudos filogenéticos. Observações do tipo “é melhor para a teoria descartar os dados” ou “filtrar os dados de modo a manter o paradigma” são comuns entre os críticos religiosos e esta verborreia reciclada foi provocada pela publicação na revista Nature de um artigo científico intitulado «Inferring ancient divergences requires genes with strong phylogenetic signals», especialmente por causa disto: «These results (…) argue that selecting genes with strong phylogenetic signals and demonstrating the absence of significant incongruence are essential for accurately reconstructing ancient divergences.» (1)
Mas o que certas pessoas não percebem é que seleccionar os dados não é a mesma coisa que descartar dados para manter o paradigma ou “ajustar dados controversos”. Há razões válidas para que certas características sejam desprezadas num determinado tipo de estudo. Há razões (que nada têm a ver com “manter o paradigma”) para seleccionar o que interessa usar para uma análise filogenética: durante a evolução de um determinado grupo, é comum perceber que características evoluem a velocidades diferentes. Por outro lado, outras características evoluem muito rápido. Esta evolução pode ser tão rápida ao ponto de que a história evolutiva desta característica seja “apagada”. A capacidade de uma característica de reflectir a história evolutiva de um determinado clado é chamada de sinal filogenético. As sequências conservadas são melhores do que sequências que divergiram muito, por exemplo. E evidências da evolução é o que não falta (b.). O que os cientistas querem perceber é as relações exactas entre as espécies.


Notas:

b. Várias são apresentadas aqui, no meu outro blog: http://allthatmattersmaddy32.blogspot.pt/


Evolução vs hipótese alternativa (criação inteligente)

Quando os cientistas investigaram a origem de certas estruturas biológicas (incluindo aquelas propostas pelos pessoal do Discovery Institute) foram capazes de perceber mais ou menos o que aconteceu. As mutações (e até mesmo a selecção natural) deixam rasto. E nós sabemos que esses processos ocorrem naturalmente em todas as populações de organismos que se reproduzem (até pode ser apenas uma molécula de RNA, desde que esta se replique). Hipóteses evolutivas têm tido bastante poder explicativo em relação a isso. Analisando as evidências podem tirar-se conclusões sobre duplicações, fusões e sobre a maneira como as proteínas podem ter evoluído novas funções (por exemplo). Sendo proposto que uma dada estrutura bioquímica com várias partes tenha, por exemplo, sido o resultado de uma série de duplicações e exaptação, essa hipótese pode ser confirmada ao analisar a estrutura, as semelhanças entre as proteínas, as funções destas e a vantagem evolutiva que determinado estádio possa ter conferido ou não. É de um modo semelhante que os cientistas têm investigado a origem de certas estruturas/sistemas biológicos. A duplicação de genes é a uma das marcas da evolução – genes que se duplicaram e divergiram são uma óptima maneira de evoluir novas proteínas (e isso foi demonstrado experimentalmente). O criacionismo do Design inteligente não tem poder explicativo, além disso encontram-se os sistemas/estruturas tal como seria de esperar se tivessem evoluído, duplicando e modificando proteínas, como os cientistas vêm acontecer quer na realidade quer em simulações. Mas mesmo assim os criacionistas podem dizer que foi o deus deles que fez as alterações ao longo do tempo, mimetizando os processos naturais e passamos do argumento da ignorância do “não pode ter evoluído” (que é era normalmente a base da argumentação dos criacionistas do D. I.) para “imita processos naturais, por isso não pode ser desmentido”. Mas o que se faz a hipóteses não-testáveis e que não servem para explicar nada é descartá-las. O criacionismo do design inteligente não consegue explicar nada e, tal como todas as convicções religiosas há uma certa altura em que vai ter de fugir aos testes da ciência. Um exemplo em que isso acontece é quando afirmam que não se consegue distinguir se as semelhanças são devidas ao design ou à ancestralidade comum. Mas mesmo assim, visto que não é obrigatório ter a mesma sequência para ter a mesma função na maioria dos casos (e há vários exemplos de funções semelhantes, mas com sequências diferentes) e pelo padrão genealógico geral (incluindo os fósseis), ainda é possível escolher a hipótese da ancestralidade comum. Mas já se nota a tentativa de fuga.

Sobre complexidade e informação:

Quanto à questão da CSI (informação complexa e especificada), se adoptarmos o critério probabilístico, qualquer sequência aleatória de 20 aminoácidos corresponde ao limite proposto por Dembski, pelo que, pelo menos nessa perspectiva, não tem grande significado para a causa do design inteligente. Se aplicarmos esse critério á adaptação, teria de ser calculada a probabilidade de uma boa adaptação surgir por processos naturais, incluindo mutações e selecção natural (com um limite de 1/10^120), de acordo com o próprio William Dembski, não estando nada garantido relativamente á “presença” de informação complexa e especificada nos seres vivos. Relativamente a atingir um determinado “pico” adaptativo, é bastante fácil arranjar um modelo em que uma população pode chegar a um pico adaptativo muito elevado através da selecção natural e de mutações, não sendo necessária a acção de um deus ou deuses (2).
Quanto à complexidade irredutível normalmente tem como antecessora a complexidade redundante e pode através desta formar-se um sistema irredutivelmente complexo e várias hipóteses evolutivas têm sido propostas para as várias estruturas e sistemas biológicos e têm sido confirmadas do mesmo modo que exemplifiquei anteriormente (ver “Evolução vs hipótese alternativa”).

Referências:


2.      «Has Natural Selection Been Refuted? The Arguments of William Dembski», Joe Felsenstein - Reports of the National Center for Science Education (Volume 27 (2007), RNCSE 27 (3–4)) (disponível aqui: http://ncse.com/rncse/27/3-4/has-natural-selection-been-refuted-arguments-william-dembski